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A transição para o FCPX

Esse post é uma resposta ao comentário do colega Alexandre Boechat no post “FCPX – Uma nova forma de Editar”, e abre um espaço a mais no blog para trocar ideias sobre a melhor maneira de se aproximar do novo programa de edição de vídeo da Apple.

Venho conversando sobre isso com outros editores, inclusive num papo recente com o amigo Alfredo Barros, da lista Final Cut Br. Ele deve até fazer um artigo para o Videoguru sobre o assunto, como colaborador convidado.

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A Apple afirma e muita gente concorda que o FCPX é um programa mais intuitivo do que a versão anterior. Virou até um lugar comum, um chavão. Na realidade, o caminho na direção do lado direito do cérebro foi aberto lá trás, em 1998, pelo Final Cut Pro original. A nova versão apenas foi mais longe nesse sentido. Bem mais longe. Para começar a usar o FCPX, é preciso deixar nosso cérebro refazer essa viagem entre os seus dois lados.

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A transição para o FCPX tende a ser um pouco difícil, principalmente no começo, afinal ele é mesmo bem diferente das versões anteriores. A transição não se completa de uma hora para outra. Ao contrário, necessita de um tempo de maturação na experiência com o programa e um certo esforço de aprendizado, porque ele é mais intuitivo mas é bastante sofisticado como ferramenta. Conta com soluções espertas e uma quantidade enorme de recursos e possibilidades, que só são percebidos e assimilados aos poucos, criando projetos nele, trabalhando edições, consultando o manual, lendo referências, e estudando com disciplina. A transição flui melhor se a gente não fica olhando pro retrovisor. Sem a cobrança de soluções convencionais encontradas nos outros programas, a lógica do FCPX e seus novos modos de trabalhar vão sendo asssimiladas naturalmente e fazendo sentido.

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Essencialmente, em termos mais gerais, o FCPX deve ser observado em sua estrutura dividida entre duas bibliotecas: uma de eventos e outra de projetos. Essas bibliotecas funcionam com alguma autonomia, e se evidenciam no Finder (na forma de pastas e arquivos), na interface (na forma de painéis), e no fluxo de trabalho inerente ao programa (importação e preparação de mídia em eventos > criação e compartilhamento de material editado em projetos). Por isso, vou me concentrar exatamente nesses dois aspectos mais fundamentais que representam a sua espinha dorsal do FCPX, os eventos e projetos.

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No caso dos eventos, o desafio maior é compreender a mudança de orientação para um sistema de edição amplamente baseado no gerenciamento de metadados, com reflexos especialmente importantes e positivos na organização e preparação das mídias originais para a edição. Não tenho receios em afirmar que a organização de mídia por metadados é muito superior e mais versátil do que aquela feita através de hierarquias de pastas. Considero isso um ponto quase indiscutível. A coleções de palavras-chave, as coleções inteligentes, e os mecanismos de filtro, fazem do Event Browser um banco de dados relacional de conteudo baseado no tempo, que permite uma experiência bem mais rica e intuitiva de preparação de material para edição.

Muitos estranham demais a ausência do modelo “monitor play-monitor rec”, e demoram para se adaptar às representações do Event Browser,  com suas duas formas de visualização do material original, por lista ou por miniatura. O filmstrip do modo de miniatura, no meu modo de ver, tem um ganho no sentido de que agrega uma forma de navegação na duração do clipe potencialmente mais precisa do que a barra scrubber da janela Viewer do FCP7. Ainda tá faltando reincorporar nele algo como os recursos “match frame” e “sync/open/gang”, para reforçar a relação com os clipes editados na timeline.

Também tem muita gente que reclama da seleção de trechos, pelo fato dela se evaporar a cada nova operação com os clipes. Mas não podemos deixar de considerar que o uso da tag “favoritos” permite escolher e gravar inúmeras seleções de trechos simultaneamente, substituindo de uma tacada só as seleções fixas e os subclipes de antes. Novas tags, como as de palavras-chave e “rejeitados”, também ser aplicadas a trechos de clipes. Outra coisa importante: é possível criar compound clips diretamente num evento, e iniciar edições a partir dali, que podem funcionar como ensaios de cortes de cenas e partes de um filme.  Também é possível fazer alterações de som e imagem em clipes originais que são mantidas em diversas edições subsequentes.

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Em relação aos projetos, não entendo que ele privilegie a linearidade. A não-linearidade do processo está lá, mas de forma diferente, na timeline magnética, que privilegia, isso sim, o que poderíamos chamar combinações livres de fluxos de duração sincrônicos. Explico melhor. A antiga timeline do FCP7 e de outros programas, foi substituída por um fluxo principal de duração do tempo que deve necessariamente ser preenchido para a edição existir, e do qual podem surgir relações sincrônicas com outros fluxos de duração igualmente preenchidos.

A referência, antes, era uma régua de tempo vazia com múltiplas trilhas, como uma partitura musical de orquestra sem nada escrito, pronta para ser preenchida. Agora a referência é uma duração principal necessariamente preenchida, nem que seja de vazio de som e imagem (os gap clips).

O que muda, portanto, é que a não-linearidade se dá a partir do jogo de combinação temporal (e espacial, no caso das imagens) do fluxo de duração principal (storyline primario) com fluxos de duração complementares (storylines secundarios e clipes conectados). Mas os elementos desses fluxos são totalmente permutáveis, horizontalmente e verticalmente, como todo o processo não-linear, e até de forma mais solta e flexível, graças à ausência de colisões de clipes.

É bem legar ver tudo se ajustando automaticamente no reordenamento de clipes e no modo ripple constante da ferramenta selection. Nada mais não-linear do que esses procedimentos. E se alguem quiser trabalhar com timeline magnética desligada, basta acionar a ferramenta Position.

Uma coisa essencial da edição não-linear é o conceito de playlist, que está incrivelmente bem contemplado no painel “Timeline Index”, com as tags do tipo “roles”. Ou seja, a timeline também pode ser vista como um tipo de banco de dados relacional de conteúdo baseado no tempo, mas que existe no tempo (de duração do projeto)! Se a gente para pra pensar, se dá conta de que a implementação da timeline magnética é realmente poderosa e muito interessante. Ela ainda conta com muitos outros recursos super bacanas, como os clipes compostos e o “audition”.

Mas a timeline ainda deixa a desejar em alguns pontos, especialmente no que se refere ao trabalho com áudio. Está faltando algo como um painel “roles view”, que eu espero que surja o quanto antes. Um “roles view” permitiria retomar a tarefa da mixagem a partir de fluxos temporais simultâneos definidos por tags de classificação de tipos de conteúdo sonoro, resultando numa alternativa possivelmente mais poderosa e inteligente daquela proposta pelo modelo multi-track.

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Não tenho dúvida de que as mudanças de paradigmas do FCPX são fruto de muita elaboração num nível de abstração bem alto. E vieram de cabeças que aprendi a respeitar, a começar pelo Jobs e pelo Randy Ubillos. Os conceitos propostos pelo FCPX estão mais distantes de modelos analógicos e mais próximos de modelos computacionais puros de gerenciamento de mídia digital baseada no tempo. Eles caminham pro lado direito do cérebro e formam os alicerces de uma ferramenta diferente, bastante eficiente e agradável de se utilizar. Se você desejar se apropriar dela, necessitará de  um tanto de esforço acompanhado de cabeça aberta e desprendimento. Pode ser que você chegue a conclusão que não lhe serve pra todos os trabalhos, mas certamente você vai perceber que ela pode ter lugar no seu arsenal de soluções para trabalhar com vídeo digital.

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