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Alerta! DaVinci Resolve 11 não é programa de edição!

Desde que a revista Filmmaker publicou um artigo em seu site anunciando o DaVinci Resolve 11 como um novo programa de edição para concorrer com Final Cut, Premiere e Media Composer, estão rolando muitas mensagens na internet sobre o assunto. Acontece que, obviamente, o autor do artigo não tem conhecimento prático de edição e viajou totalmente.

A ideía de implementar funções de edição no DaVinci Resolve 11 não é transformar o programa de correção de cor em um programa de edição completo. Muito pelo contrário. A idéia é oferecer mais recursos de finalização – a chamada edição online.

Antigamente havia uma distinção clara entre edição offline e edição online. A edição offline era a praticada com o objetivo da arte da edição em si. Quando o programa ou filme estava com a edição totalmente fechada, aí o material ia para uma ilha online onde acontecia a ligação das imagens com o material original de alta qualidade e a finalização em geral (com correção de cor, transições, efeitos finais, filtros, etc.). A razão dessa distinção vinha do fato de que as ilhas de finalização eram muito caras. Daí o material era copiado em qualidade mais baixa, editado e só então era finalizado em uma ilha online.

Quem trabalhou com AVID há muitos anos se lembra da compressão horrorosa que deixava as imagens mais parecendo mosaicos. Mas era o único jeito de se editar digitalmente em um sistema que não custasse várias centenas de milhares de dólares. Com a evolução das máquinas e programas de edição, em geral, passamos a editar na qualidade original do material e a ter acesso a recursos cada vez mais sofisticados. Tornou-se possível entregar o material final diretamente do programa de edição. Consequentemente,  a distinção entre offline e online tornou-se bem nebulosa.

Acontece que a sofisticação no acabamento também cresceu bastante. E, hoje em dia, programas de TV, comerciais, filmes e outros precisam de um bom acabamento para serem bem aceitos. É aí que entra novamente em campo o conceito do online.

O DaVinci Resolve é o programa mais utilizado para correção de cor e color grading do mundo. E, o que acontece, é que muitas vezes o colorista recebe o material sem este estar totalmente pronto. E aí este deve voltar para uma ilha de edição para receber os retoques finais. Ou, em alguns casos, sofre uma revisão editorial depois que foi para o tratamento de cor e o trabalho tem que ser refeito em grande parte. Para lidar melhor com isso, a tendência entre os programas de correção de cor tem sido implementar ferramentas mais sofisticadas de edição e compositing em seus programas. Ou seja, em vez de ter que devolver o material com a cor tratada para um editor, o colorista agora pode fazer ajustes finais e entregar o master já com todos os elementos, inclusive o audio. E vale observar que, embora possa até fazer uma mixagem simples de audio, o Resolve 11 também não quer tirar o trono do ProTools.

Até a versão 9 do Resolve, eu tinha que exportar o material tratado para o Final Cut para poder fazer a revisão final e, só aí, gerar o master para o cliente.  Com a versão 10, isso já não é mais necessário. A integração melhor do material na importação, a introdução de funções de edição mais sofisticadas e a possibilidade de fazer ajustes e revisar o material com som e cartelas em tempo real acelerou muito o processo e, hoje em dia, costumo fazer a revisão final e dar saída dos masters diretamente do Resolve.

Esse novo fluxo de trabalho online foi muito bem recebido por todos – de coloristas a produtores – pois melhora o controle de qualidade e acelera o processo. Por causa disso, a Blackmagic tem investido cada vez mais nas ferramentas de edição. Mas sempre deixando bem claro que a idéia não é entrar no mercado “offline” e concorrer com os programas tradicionais. É claro que os Resolve 10 ou 11 até servem para a edição de materiais mais curtos e/ou simples, como comerciais, clipes musicais ou até mesmo certos curta metragens. Porém, suas ferramentas estão focadas na finalização e o programa não conta com as ferramentas de organização necessárias para ser um programa de edição completo.

O que confunde ainda mais certos jornalistas como este da revista Filmmaker, que não trabalham diretamente com essas ferramentas, é que o material original de câmera passa, cada vez mais, pelo programa de tratamento de cor antes de ir para a edição. Um exemplo é o fluxo de trabalho em RAW com câmeras como as Blackmagic, RED e ARRI. Como esses programas têm processamento de imagem bem mais avançado e contam com máquinas altamente sofisticadas, são capazes de fazer a conversão para formatos mais leves de edição em tempo real ou até mais rápido. Esse material convertido, que geralmente é chamado de proxy, é então exportado e editado em um programa de edição tradicional. Quanto a edição termina, um XML é importado no programa de tratamento de cor e os planos utilizados são substituídos pelo material em RAW, que é o que vai ser usado no tratamento final da imagem. Seguindo esse fluxo de trabalho economiza-se tempo e assegura-se a melhor qualidade de imagem possível.

Portanto, afirmar que o Resolve 11 veio para competir com o Final Cut, Premiere e Media Composer demostra total falta de conhecimento do mercado de pós produção mais avançado. Para piorar, ainda existe o fator máquina. No final do artigo, o autor sugere que as pessoas baixem a versão gratuita do Resolve 11 para usar como programa de edição tradicional por essa ser grátis. Não leva ele em conta, porém, que o Resolve requer uma máquina muito mais poderosa, de última geração, para funcionar corretamente. Enquanto que um programa de edição tradicional roda perfeitamente em um laptop simples, com vários anos de idade, o Resolve 11 requer uma máquina bem cara e sofisticada.

Como a tecnologia vai evoluindo e as funções das ferramentes acabam se sobrepondo, é bem possível que um dia até seja viável fazer todo o trabalho sofisticado de edição de um longa metragem dentro de um programa de tratamento de cor. No momento, porém, isso não é nem possível nem indicado. Portanto, o VideoGuru resolveu esclarecer essa confusão para evitar que nossos leitores baseiem suas futuras escolhas de ferramentas de edição em informações  errôneas.

Publicaremos, em breve, um artigo sobre o novo Resolve 11 detalhando melhor os novos recursos.

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13 comentários Nesse post
  1. Ola, excelente matéria. Fiquei com duas dúvidas. 1) o que são cartelas em tempo real?
    2) Em que formato os seus masters são gerados? Vc poderia detalhar o seu workflow com o resolve?

    Grande abraço

    • Andre, são cartelas com transparência que, no Resolve, não precisam de render e são reproduzidas em tempo real mesmo quando sobrepostas a imagens já com tratamento de cor. Na maioria dos programas de edição seria necessário um render.

      Quanto ao formato dos masters, depende muito da exibição. Costumo sempre gerar um master principal em ProRes 422HQ, mesmo que esse não seja o formato final de exibição, porque o ProRes acabou virando padrão para isso. Muitos canais de TV e festivais de cinema já aceitam o ProRes direto. Quando o material vai ser exibido em DCP, o master ProResHQ também pode servir como ponto de partida. Ou então as conversões podem ser feitas no próprio Resolve. Mas existem diversos outros formatos que dependem muito da exibição. XDCAM HD, DVCPRO HD, etc. Sem contar as conversões necessárias para 29.97 caso o material final esteja em 24 ou 23.98 quadros por segundo.

      O workflow também varia, mas geralmente recebo um projeto já fechado em Final Cut ou Premiere (praticamente não vejo mais AVID hoje em dia), que geralmente vem de acordo com certas normas que mando para meus clientes. Depois de fazer os acertos finais, exporto um XML, que importo no Resolve. Aí o tratamento de cor é feito normalmente, corte a corte. Geralmente importo o mix final de audio se ele não estava pronto no editor e reviso o material em tempo real, fazendo os ajustes finais caso sejam necessários. Se as cartelas estiverem prontas, já dou saída a um master final. Mas muitas vezes alguns elementos ainda não estão prontos e aí o material acaba voltando para o cliente sem eles, como no caso de algumas séries para TV.

      Obviamente, tudo pode variar muito. Em alguns casos, por exemplo, recebo um único Quicktime do projeto e uso a função Scene Cut Detection para detectar automaticamente os cortes. Isso funciona muito bem em projetos de curta duração, mas dá um certo trabalho em formatos de duração mais longa.

  2. Bom, meu nome é Paulo Emilo tenho 22 anos de edição e finalização, já passei pela BVE900 ao Smoke,FCP, Avid, Media 100, Edit e agora o famigerado Premiere. Estive na NAB esse ano e gastei um dia inteiro ao lado de varios especialistas da Black Magic e convidados. A impressão que tive é de que o Davinci é sim de capaz de ser um editor off-line e online, e dos bons. Todas as ferramentas comuns de montagem estão lá e outras novas muito legais. O media pool completamente simplificado e lendo diretórios do disco e pastas se transformando em bins.Vi o software rodando em laptops da apple com performance perfeita, uma interface de dar inveja ao Premiere, na verdade tudo que esperava do nunca lancado Finalcut 8. Acho que vamos ter boas supresas com o Davinci.

    • Paulo, as ferramentas são realmente excelentes e até dá para editar certos projetos offline. Mas a própria Blackmagic está enfatizando que o Resolve 11 é focado no online, e não em offline. Eu não aconselharia ninguém, ainda mais nesta primeira versão do software com recursos mais avançados de edição, a editar seu longa metragem desde o início no programa. Os programas de edição dedicados tradicionais ainda são bem melhores, no geral. Mas o Resolve é realmente cativante como sistema de edição, ainda mais pelo fato dele trabalhar em tempo real. As ferramentas são muito inteligentes e as demos são impressionantes. Mas devemos levar em consideração – e você tem bastante experiência para saber disso – que uma coisa são as demos dos fabricantes, com poucos arquivos e projetos de curtíssima duração, e outra é um documentário de longa metragem com mais de 70 horas de material filmado.

      Concordo com você que teremos boas surpresas com as funções de edição do Resolve, no futuro. A Blackmagic está desenvolvendo seus produtos em um ritmo alucinante, sempre levando em consideração as necessidades reais dos profissionais. A empresa tem quebrado muitas barreiras tradicionais e tem dado muita dor de cabeça aos concorrentes. Se o mercado desejar, não duvido nada que o programa se desenvolva a ponto de concorrer diretamente com os Final Cuts e Avids da vida. Mas vamos ter que esperar mais um pouco pra ver se isso vai acontecer. Por enquanto esse tipo de concorrência não é muito interessante para a Blackmagic, já que a idéia principal é virar a ferramenta de tratamento de cor preferida para uso em projetos editados nos programas tradicionais. E isso facilita as alianças que a empresa tem com os outros fabricantes. Um exemplo é a colaboração entre a Apple e a Blackmagic, fazendo com que o Resolve 11 tenha a melhor interface com o Final Cut Pro X de todos os programas de tratamento de cor.

      O Resolve é uma das ferramentas mais estáveis que já usei. Trabalho o dia inteiro com ela e raramente dá pau. Se as funções de edição evoluírem ainda mais e a velocidade e estabilidade continuarem como são, certamente o programa causará mais um revolução no mercado.

  3. DE ALTISSIMO NIVEL AS POSTAGEMS E ARTIGOS. Fica claro e visivel que se trata de colunistas profissionais, diferente da molecada hoje em dia que mal sabe segurar numa camera e ja sai postando um monte de coisa.

    Irei acompanhar o blog sempre.

  4. Olá Paulo, quero deixar minha satisfação em acompanhar seu site.
    Sou publicitário e entrei nesse mundo depois de ter meu filho e quero registrar
    com qualidade seus momentos. Sou apaixonado por cinema. Bem vamos
    a minha dúvida. Sabe me explicar porque o Resolve não aceita arquivo MTS?
    Qual seria a melhor solução para exportar em um formato que não perca qualidade.
    Tentei exportar um XML do premiere e não deu certo. Estou mudando para o
    Final Cute Pro X agora. Pode me Ajudar? Grande Abs

    • Alexandre, o Resolve só aceita formatos profissionais. O MTS é um formato que utiliza uma compressão muito agressiva e não é indicado nem para edição, quanto mais para finalização. O procedimento normal é converter o material de MTS para ProRes pantes de editar. Aí o Resolve aceita sem problemas. Até fazer essa conversão é um processo meio complicado, e muita gente usa o Handbreak para passar para mp4 e depois o MPEG Streamclip para passar para ProRes. Só que isso gera mais perda de qualidade ainda. Mas existem alguns programas pagos que fazem isso direto. O primeiro é o HD Video Converter (http://www.hdmediaconverter.com/hd-video-converter-for-mac/) e o segundo é o AVCHD Converter for MAc (http://www.avchd-mts-m2ts-converter.com/avchd-converter-for-mac/). Existe também um programa gratuito que é o Pavtube Free MTS M2TS Converter. Você pode baixá-lo diretamente da loja da Apple no seguinte endereço: https://itunes.apple.com/us/app/free-mts-m2ts-converter/id517643843?mt=12

      • Olá Paulo, achei um jeito de instalar o ProRes no Premiere CC. Assim os materiais que já filmei em AVCHD consigo exportar e trabalhar no Final Cut e Resolve. Agradeço mais uma vez a dica e ajuda.

  5. Vou experimentar todos pra ver qual terá um melhor resultado.
    Eu achei que seria melhor filmar em AVCHD porque tenho uma GH4 e Uma Lumix FZ 1000.
    Como queria o mesmo formato nas duas optei por AVCHD. É que a Lumix FZ 1000 só grava
    em MP4 ou AVCHD e não em MOV como a GH4. Pra frente vou usar MP4.
    Obrigado pela ajuda.
    Abs

    • De nada, Alexandre. Seria bom você fazer um comparativo entre o AVCHD e o MP4 da FZ 1000 só para ter certeza de que um formato não é pior do que o outro.

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