Home Artigos AVID em apuros?

AVID em apuros?

Exatamente um ano atrás, as ações da AVID valiam US$ 19,47. Ontem, fecharam em US$ 8,25. E, quatro dias atrás, a empresa anunciou a venda da divisão de consumo da M-Audio e de toda sua linha de edição doméstica e semi-profissional.

A AVID, uma das empresas pioneiras em edição não linear, anunciou recentemente um prejuízo de US$ 15.6 milhões de dólares só no primeiro trimestre de 2012. E já avisou que vai reduzir seu quadro de funcionários em 20%. Só que já demitiu 10% de seus funcionários em outubro de 2011.

Ou seja, a AVID já anda navegando em águas turbulentas faz tempo. Em 2008 perdeu 150 milhões de dólares. E, ano passado, 20 milhões. Por isso, a notícia que apenas nos últimos 3 meses o prejuízo já alcançou quase o mesmo valor de todo o ano passado é, no mínimo, alarmante.

Nem o recentemente lançado aplicativo AVID Studio para o iPad escapou e também foi vendido. O que isso tudo significa? Por que a firma que já foi sinônimo de edição não linear corre o risco de sumir do mapa? Não podemos afirmar com certeza, mas o mercado tem suas teorias.

Para começar, a AVID há muito recusa a se adaptar às realidades do mercado. Foi-se o tempo em que era possível vender um sistema de edição totalmente proprietário por mais de uma centena de milhares de dólares. Com a chegada do Final Cut Pro em 2001, muitos editores resolveram largar o antigo modelo das pesadas taxas anuais de manutenção da companhia e adotar o novo modelo da Apple.

Com custos menores, os editores que pularam a cerca tornaram-se mais competitivos no mercado e o êxodo foi aumentando. A AVID parecia fingir que não enxergava o que estava acontecendo. Lembro-me de uma NAB onde a AVID, apesar de perder centenas de usuários por semana, mantinha a atitude arrogante de um inatingível Titanic.

Quando a Apple lançou o Final Cut Studio, uma suite completa de programas do mais alto nível, a situação piorou ainda mais para a AVID porque o preço de seu programa de edição profissional mais básico era bem maior do que o da suite inteira da Apple.

E a mentalidade cabeça dura da AVID foi continuando. Em vez de admitir que os tempos mudaram e oferecer um programa completo a um preço menor para competir com a Apple e a Adobe, a empresa insistiu em vender programas “mutilados”, forçando o usuário a pagar bem mais caro se desejasse funções hoje básicas como correção de cor.

Outro problema considerável foi a recusa em renovar a interface de edição. Com o surgimento de interfaces muito mais criativas e intuitivas em todos os segmentos da indústria de criação e até no mercado consumidor, a AVID deveria ter reavaliado este aspecto importante de seus produtos.

O golpe mais recente foi o que surpreendeu todo mundo. Apostando no fracasso do Final Cut X e se aproveitando do frenesi causado pelos usuários mais impacientes do Final Cut Studio que acharam que o X seria apenas um iMovie mais sofisticado, a AVID iniciou uma campanha de incentivos para que os usuários do FCP mudassem para o seu lado.

Só que, mais uma vez, as aparências enganaram. O que parecia era que a AVID ganhava fôlego com milhares de novos usuários e um tanto de antigos usuários que retornavam para a marca. Mas a situação financeira da empresa mostra que isso não era verdade, para surpresa geral.

Agora a AVID, mais uma vez, vai contra as realidades do mercado. Enquanto que a Apple e a Adobe usam parte dos recursos provenientes do mercado de consumo em massa (no qual investem cada vez mais) para aprimorar suas linhas profissionais, a AVID se livra desse segmento alegando que deve focar somente no lado profissional.

Só que nada leva a crer que ela esteja prestes a cortar seus preços nem a lançar uma suite integrada como a que vai levando tantos usuários para a Adobe. Nem há indício que o Media Composer despenque de preço para brigar pau a pau com o Final Cut X. Que, diga-se de passagem, vem conquistando rapidamente o coração dos usuários após o susto inicial da mudança.

Infelizmente, será necessário um esforço enorme por parte da AVID para recuperar o tempo perdido e se adaptar ao novo mercado de edição, que não depende mais tanto do cinema e da TV, como em seus tempos áureos. E fazer com que seus produtos se tornem tão inteligentes e intuitivos quanto os da competição.

Mas, mesmo assim, torcemos para que a AVID sobreviva. Afinal, muitos de nossos colegas usam seus produtos e estes continuam sendo ferramentas robustas e capazes.  Ver mais uma empresa do porte da AVID sumir do mercado por falta de adaptação seria muito triste. Muitas outras empresas queridas e respeitadas sumiram do mapa e, apesar de tudo, fazem falta.

Muitas vezes uma situação de crise leva uma empresa a buscar soluções criativas e dar a volta por cima. Tomara que a AVID consiga e, neste processo, nos traga novidades que sacudam o mercado e incentivem a competição. Em 2002 suas ações valiam apenas US$ 8,05. Em 2005, alcançaram o patamar de US$ 67,00. Se a empresa já deu a volta por cima uma vez, certamente pode repetir o feito, apesar das baixas probabilidades.

Gostou do artigo ?

Inscreva-se em nossa Newsletter para receber as atualizações do VideoGuru.

Autor
Paulo trabalhou na Rede Globo de Televisão como roteirista, diretor e editor e também escreveu sete longa metragens do grupo Os Trapalhões. Em 1991, abriu uma produtora nos EUA, onde conquistou vários clientes importantes, recebeu diversos prêmios e escreveu centenas de artigos como editor contribuinte para algumas das mais importantes publicações profissionais americanas e internacionais. Hoje Paulo trabalha como colorista para TV e cinema, com clientes no Brasil, Estados Unidos e Europa.
Artigos relacionados
0 3856

A Blackmagic Design é realmente incansável. Além de não parar de aprimorar seus produtos e anunciar novidades durante o ano todo, a empresa liderada por Grant Petty aproveitou a IBC 2014 para consolidar ainda mais sua posição de líder...
0 3611

A Adobe anunciou as novas atualizações de sua linha de softwares de video digital, que serão demonstradas em primeira mão na IBC, a segunda maior feira de equipamentos e soluções para a indústria audiovisual, prestes a ocorrer em Amsterdam, na Holanda. Melhor para os felizardos que estarão...

Deixa seu comentário

GALERIA

1 5068

A interação entre ação viva e animação tem sido explorada ao longo da história do cinema, com muitos exemplos dos estúdios Disney e o inesquecível "Uma Cilada para Roger Rabbit", dirigido por Robert Zemeckis. O resultado, em geral, é estimulante. Pensando bem, a idéia...
8 5525

Esse vídeo fantástico, feito na Rússia para o lançamento de um projeto imobiliário, foge totalmente dos padrões tradicionais e utiliza a fantasia, com imagens incríveis, no lugar do uso tradicional de plantas e animações dos prédios em computação gráfica....
1 6180

Há algum tempo, publicamos um post com um vídeo do editor Piu Gomes, criado para responder a essa pergunta essencial para quem quer entender a linguagem audiovisual: o que é montagem? Também publicamos, há mais tempo ainda, outro post chamado...