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Dia 22 de outubro e a hora de mudar de cada um

No próximo dia 22 de outubro, a Apple programou um evento para a imprensa em que haverá o lançamento de novos produtos, incluindo o novo OS Mavericks. É certo de que será a vez do novo Mac Pro e, junto com ele, do primeiro major upgrade do Final Cut Pro X, que deve ir para a versão 10.1.

Esse post aproveita a proximidade dessa data para propor uma reflexão sobre as tendências do mercado de programas de edição não-linear de vídeo digital. Até porque, até aqui, desde o surgimento do FCPX, ele ficou meio que paralisado. Será que finalmente está chegando a hora de mudar de ferramenta para a maioria dos editores?

Que caminhos tomarão os usuários? Será que o FCPX finalmente mostrará força para superar o preconceito e a impressão negativa que seu lançamento deixo em muita gente? E o que ocorrerá com os outros players, como o Premiere e o Avid Media Composer? Quem tem mais chance de alargar sua base?

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Em junho de 2011, a Apple anunciou a morte e a ressurreição do seu famoso e prestigiado software de edição, Final Cut Pro.

A versão clássica ficaria estacionada para sempre no número 7.0.2, enquanto uma nova versão chegava com um salto na numeração, pulando pra 10, ou X, para os romanos e para a turma do marketing da Apple.

A nova versão não estava realmente pronta, saiu sem vários recursos que a versão anterior tinha, mudava toda a forma de trabalhar, usava uma nova arquitetura de plugins, não se comunicava bem com outros softwares de pós-produção, e não abria os projetos das versões anteriores.

Todo mundo sabe o que veio depois disso. A reação dos usuários foi tremenda. Walter Murch não avalizou a mudança, houve vídeos de chacota na web, e a grande maioria dos profissionais dos nichos broadcast e de cinema digital não quis nem experimentar.

Só mesmo a Apple poderia se dar ao luxo de fazer o que fez: bancar a descontinuação de um programa hegemônico, líder de mercado, por uma aventura de revisão conceitual e tecnológica da ferramenta de edição não-linear de vídeo digital.

Normalmente, a Apple sabe o que faz, mas, nesse caso, podia ter feito melhor e ser disruptiva sem afastar a comunidade de editores. E olha que ela até já tinha muita experiência nisso, por exemplo, com o System 7 e o System X.

Dizem que tudo aconteceu desse jeito para que o programa pudesse ser lançado antes da morte de Jobs. Era importante que todos vissem que se tratava de algo que também era da sua lavra, que tinha a sua anuência.

O tempo passou. O Final Cut Pro X já está na versão 10.0.9. O programa amadureceu e hoje é utilizado em todo o tipo de produção, até mesmo na edição profissional de longa-metragens de Hollywood. Um importante ecossistema de plugins e aplicativos periféricos se formou em torno dele, aumentando bastante seu poder de fogo.

Mas a verdade é que, de lá pra cá, entre o pessoal mais antigo, as posições foram mantidas, com pouca gente transitando do FCP7 para o FCPX ou uma ferramenta diferente.

Recentemente promovi uma enquete informal em um grupo de Facebook com mais de 2000 de editores brasileiros (possivelmente um dos maiores e mais representativos), e é isso que gostaria de dividir com os leitores do Videoguru. Vamos às enquetes e o resultado delas. Foram duas perguntas básicas:

1. Qual o principal programa de edição que você está usando no momento? Houve 137 votos, e o FCP7 liderou como a principal alternativa para 77 editores.

2. Qual o principal programa de edição que você pretende usar para os próximos anos? Houve 92 votos, e o Avid Media Composer liderou como a principal alternativa para 42 editores.

Veja abaixo os gráficos com os percentuais de cada votação:

Enquete 1

Enquete 2

Os resultados guardam alguma inconsistência estatística, pelo fato de alguns poucos editores terem votado em mais de uma alternativa para a mesma pergunta. Mas esse detalhe parece ser irrelevante no quadro geral, que aponta fatos e tendências inequívocas.

O fato de ter tido menos gente votando na segunda pergunta, mostra, talvez, que o número de indecisos sobre qual caminho seguir pode ser maior do que os 5% anotados na enquete. O menor numero de votos também pode ter sido ocasionado por um menor número de editores escolhendo mais de uma opção nessa pergunta específica.

Mas impressiona perceber que mais de 50% dos editores profissionais nesse recorte ainda hoje utilizam o FCP7, e que 21% não pretendem mudar de ferramenta nos próximos anos. Trata-se de uma versão lançada em julho de 2009, ou seja, com mais de 4 anos rodando nas máquinas desses usuários!

Por outro lado, vemos que, hoje, o Premiere desponta como a segunda alternativa mais popular adotada atualmente pelos editores, mostrando que a Adobe foi muito bem sucedida nas suas ações de desenvolvimento e campanhas para aumentar a sua base de usuários. E na projeção para os próximos anos, também está firme na terceira posição.

O Media Composer praticamente emparelha com o Premiere como segunda alternativa nesse momento, mas ganha dele disparado no horizonte dos próximos anos, colocando-se como opção preferencial de uma futura migração dos usuários do FCP7.

E o FCPX, por sua vez, nas duas situações da enquete, fica na faixa de quase 10%, evidenciando que a Apple ainda não conseguiu desconstruir a percepção negativa que remonta às circunstâncias desastradas do seu lançamento.

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Isso quer dizer que o FCPX é um fracasso e que não tem futuro no mercado profissional de edição? Não creio. Essa seria uma leitura apressada e balizada em um retrato incompleto da situação atual e vindoura.

Tem muita gente editando profissionalmente e que não se coloca como editor profissional; são os chamados profissionais criativos. São caras que trabalham para atender uma demanda audiovisual que vai muito além do cinema e da TV e cresce cada vez mais. Possivelmente, esses não estão tão bem representados no grupo e na amostra da enquete.

Esse pessoal está fazendo a edição de vídeo deixar de ser apenas uma profissão, para virar também uma habilidade profissional.

Claro que é nisso que a Apple está apostando, o FCPX foi pensado para esse novo momento. E não está dando tão errado assim, tanto é que a empresa declarou há alguns meses que o FCPX já tinha superado as vendas da ultima versão do FCP clássico (o Final Cut Studio 3).

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Considerando tudo isso, como podemos avaliar as tendências desse mercado de programas de edição?

Pessoalmente, penso que, em tese, o Premiere e Final Cut Pro X são os programas com maior potencial de crescimento nos próximos anos.

O Premiere, porque toca todos os formatos de modo nativo, porque representa a transição mais suave de ferramenta para quem vem do FCP7, e porque tem todo o arsenal da Adobe por trás (After, Photoshop, etc.)

O FCPX, porque é inovador, muito barato, rápido e intuitivo, está só no começo do desenvolvimento, e é extremamente atraente para quem está começando. E porque é da Apple.

Em contrapartida, interpretando a enquete, avalio que o Media Composer também tende a crescer dentro dos nichos nos quais já está presente, com um certo tipo de workflow, mas que apresentam pouco potencial de expansão.

Não consigo ver o Media Composer com perfil para abrir frente nessa imensa periferia que está se formando, em torno e à margem da edição para cinema e TV.

Temos que levar em conta que o programa é o mais complexo de todos, que exige mais conhecimentos técnicos, e que possui a curva de aprendizagem mais íngreme.

Só agora está consolidando sua transição para o modelo hegemônico há vários anos no setor, baseado em arquitetura aberta, independente de hardware e software proprietários.

E mesmo com a redução drástica de preço para US$1.000, ainda é o mais caro entre os players, e sem uma percepção clara e convincente de que essa diferença se justifica para todo o tipo de workflow.

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É certo que todas as empresas estão fazendo esforços consideráveis para alavancar a sua base de usuários, cada uma com as suas estratégias.

Teremos que esperar até a semana que vem para conhecer a iminente versão FCPX 10.1, que provavelmente será a versão que devia ter sido apresentada há dois anos atrás, quando o programa foi lançado. A nova versão do FCPX será crucial para a o futuro do aplicativo e a Apple precisa acertar em cheio dessa vez.

A Adobe entrou num terreno diferente nos últimos meses com o Anywhere, o do workflow de projeto compartilhado via servidor. Isso pode incomodar a Avid num setor em que vem sendo praticamente absoluta, e atrair a atenção de empresas grandes, como emissoras de TV. O sistema de assinatura do Creative Cloud foi uma cartada alta, pode dar certo, e influir nessa questão, embora muitos profissionais e produtoras o considere uma “furada” desvantajosa.

Se o movimento da Avid de renovação e rebaixamento de preço do Media Composer, no caso não conseguir mesmo ampliar significativamente a sua base de usuários, será suficiente para manter a empresa lucrativa e saudável, aí já é uma outra questão em aberto. No momento, as dúvidas persistem. Se não for suficiente, o que pode acontecer? O programa poderia ser vendido? Para que empresa?

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Podemos fazer análises e projeções como as desse post, discutir calorosamente, defender apaixonadamente a ferramenta de que mais gostamos, mas, no fim das contas, a definição de para que lado irá o mercado será fruto de decisões individuais de cada editor, mais até do que dos patrões e donos de produtoras.

É você que saberá interpretar qual o melhor momento de mudar, e decidir qual escolha deve ser feita. Essa é a única certeza que podemos por hora. O resto, é um tempo, que se aproxima cada vez mais, que vai dizer. Dia 22 de outubro vai influir nisso e apressar esse relógio.

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6 comentários Nesse post
  1. Entendo essas criticas ao FCPX em relação ao FCP7.
    Foi uma mudança muito drástica e pareceu ser uma afronta que a Apple fez aos usuários do FCP7, obrigando-os a mudar em tudo.
    Mas eu, que comecei a lidar com montagem com o FCPX, não vejo nada de problemático nesse programa. Acho ele realmente intuitivo e fácil de usar. Já usei a alguns anos atras o Premiere e considero o FCPX meio parecido em algumas funções dele. A função Blade(lamina), por exemplo, esta lá, rsrsr.
    E a ideia de storylines ainda resolve muito bem o ato de montar.
    Abs

    • É isso aí João. Você é um exemplo claro que comprova o que escrevi no post. Quem está chegando agora na edição de vídeo se sente muito à vontade com o FCPX, e é nesse público que a Apple está apostando.

  2. Eu comecei a editar com final cut 6 demorei a me adaptar ao fcpx, até passei a editar no adobe premier por um tempo, mas as vantagens e a velocidade de trabalho no fcpx me deixou apaixonado pelo programa.

    Hoje só uso o fcpx.

    • É o que tenho visto, quem passa desse primeiro estranhamento e realmente se dedica a aprender e usar o programa com desprendimento, acaba gostando tanto que passa a adotar o programa. Infelizmente, a grande maioria que fala mal ou rejeita o FCPX, pouco ou nunca usou o programa.

  3. Vejo gente postar no face: “duas da manhã, 4 horas renderizando… mas eu amo meu trabalho!”(sic)

    não, vc não ama tanto como pensa. Se amasse, ia perceber que seu fc7 te afastou 4 horas da frente da timeline.

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