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Novos tempos – O fim da película e a revolução chinesa

Sem fazer nenhum alarde, os maiores fabricantes de câmeras cinematográficas do mundo, Arri, Panavision e Aaton,  cessaram a produção de câmeras de película. O cinema digital domina o planeta. E agora os chineses vem com tudo para dominar o mercado.

O mercado já parecia competitivo o suficiente com cada vez mais HDSLRs e câmeras de cinematografia digital poderosíssimas da RED, Canon, Arri, Sony, Panasonic, Panavision e outras. Só faltava mesmo os chineses chegarem para causar mais uma revolução. A KineRAW é a arma deles, com recursos excelentes, ótima qualidade de imagem e, é claro, um preço de cair o queixo.

Mas voltemos ao fim da película. Embora muitos ainda insistam em debates acalentados que o filme é superior ao digital, a realidade é que as câmeras digitais alcançaram um nível de sensibilidade e qualidade incomparáveis. Rodar um filme em película, hoje em dia, só se justifica mesmo por razões estéticas ou sentimentais.

A pós foi a primeira etapa a abraçar completamente o digital por oferecer diversas vantagens, indo desde a edição não linear mais rápida e versátil até a finalização com milhares de efeitos disponíveis e um tratamento de cor com precisão antes inimaginável. Sem contar que, mantendo toda a etapa digital, a inclusão de computação gráfica e outros efeitos especiais ficou muito mais simples. O problema, principalmente para os produtores independentes, era ter que converter o master digital em um negativo em película – o famoso e temido ($$$) transfer.

Projetor de cinema digital de 4K da Sony. O adeus às cópias em película arranhadas ou ruins

Mesmo assim, fazia sentido rodar em película porque as câmeras  digitais de cinema não ofereciam nem a qualidade nem a latitude do filme. Só que isso também mudou. E, além das câmeras digitais modernas se igualarem ou ultrapassarem a película em qualidade ou  recursos, elas se tornaram extremamente acessíveis, abrindo as últimas portas para o produtor independente poder competir em igualdade de condições com os grandes estúdios – pelo menos no que diz respeito à qualidade do material filmado e exibido.

O último domínio da película, a distribuição, sofreu o grande golpe mortal em meados do ano passado, quando metade das salas de cinema dos Estados Unidos foram convertidas para projeção digital. Estima-se que em 2013 todas as salas de cinema americanas sejam digitais. E o fenômeno está se espalhando rapidamente pelo mundo.

Para piorar para a centenária película, o cinema em 3D é muito mais fácil, preciso e viável quando rodado em digital. Por isso, grandes diretores como Cameron e Scorsese abraçaram o digital com tudo. Aliás, o filme mais recente de Scorsese, Hugo, tem sido considerado o que melhor utiliza a tecnologia 3D até hoje. Foi rodado com duas Arri Alexa configuradas em um rig de 3D. Se você ainda não assistiu, não perca.

Rig com duas Arri Alexa para filmagens em 3D

Com a recente falência da Kodak, as câmeras de cinema em película não mais sendo fabricadas e a projeção digital acabando com a projeção tradicional, o fim total da produção em película está obviamente próximo. Mas esta não é uma revolução que aconteceu de uma hora para outra.

Francis Ford Copolla foi um dos pioneiros da cinematografia eletrônica e até mesmo os Trapalhões rodaram um longa em vídeo, em 1978, em parceria com a Rede Globo. Em 1982 participei de um workshop de cinematografia eletrônica na Universal com gênios como Vilmos Zsigmond nos ensinando a iluminar com as câmeras-protótipo Panavideo da Panavision.

Em 1978, longa dos Trapalhões rodado e editado eletronicamente 

Por que, então, essa mudança demorou tanto? Em primeiro lugar, as câmeras mais antigas tinham resolução baixa e latitude muito inferior à da película. Em segundo lugar, a tecnologia era analógica e deixava muito a desejar – embora já existissem vantagem em todo o processo ser eletrônico. Foram necessárias algumas décadas para a tecnologia digital avançar e a película se render, apesar da constante luta e o desenvolvimento quase heróico de negativos cada vez mais sensíveis e menos granulados.

Segundo a Arri, um dos mais tradicionais fabricantes de câmeras de cinema do mundo, em dois a três anos 85% de toda a produção cinematográfica mundial será em digital. Quer dizer, não tem mais volta.

E é aí que entram os chineses. Se sua opinião é que eles só fazem quinquilharias de baixa qualidade, é porque não deve conhecer os equipamentos de audio high-end deles. Ou os fantásticos microfones de estúdio. Depois de tantos anos montando aparelhos de qualidade para o resto do mundo, obviamente eles adquiriram um vasto conhecimento técnico, sem falar que contam com excelentes escolas e faculdades para formar grandes técnicos e engenheiros.

Protótipo da KineRAW s35. Made in China com muito orgulho…

Então, não é de espantar que eles tenham resolvido entrar nesse mercado com uma câmera desenhada para competir diretamente com a RED, a Canon s300 e até mesmo com a Arri Alexa. Com um sensor do tamanho do negativo Super 35mm, resolução de 2K e gravação em RAW a KineRAW S35 grava em drives SSD e é repleta de conexões e locais para adaptar acessórios diretamente na câmera.

Tá, o design dos protótipos não é dos mais bonitos. Pode ser – e espero – que eles mudem até o lançamento definitivo. Mas duas coisas, além do resto, chamam bastante atenção. A primeira é que a câmera é a mais versátil do mercado porque pode trabalhar tanto com lentes PL quanto com lentes Canon EF, bastando apenas trocar uma peça – coisa que o próprio usuário pode fazer. As outras câmeras geralmente oferecem as duas opções, mas você tem que escolher só uma, que vem de fábrica, e não pode depois trocar você mesmo.

O painel LCD para ajuste dos parâmetros

Ou seja, você pode praticamente utilizar qualquer lente nela. As PL e qualquer outra lente com um simples adaptador para Canon EF (EOS). O outro detalhe é que veio para sacudir de vez o mercado. O modelo mais caro custará entre sete e oito mil dólares. Isso mesmo, US$ 8.000,00 por uma câmera altamente profissional.

E, se você acha que chinês não entende nada de cinema, é porque não tem acompanhado o trabalho fenomenal que eles tem feito na sétima arte. A indústria cinematográfica deles é uma das maiores e melhores do mundo. O que não falta é colaboração de profissionais de primeira linha no desenvolvimento destas câmeras.

E ainda tem mais: o fabricante oferecerá dois modelos adicionais. Um com sensor do tamanho de Super 16mm e outro com sensor do tamanho equivalente ao de Super 8mm. Esse último com um preço planejado abaixo de US$ 2.000,00. Taí um novo significado para o termo ” revolução cultural chinesa”.

É difícil de acreditar que uma câmera completa, com som embutido, gravação em RAW e tudo mais possa prestar por esse preço. Mas convém lembrar que todos desconfiaram da Canon 5D MkII pelo mesmo motivo quando ela saiu. E olha só o que aconteceu: mudança radical no mercado. Portanto, assista os vídeos abaixo e preste atenção na qualidade das cores, resolução da imagem e ausência de moiré. E depois me responda se os chineses estão ou não dispostos a entrar nessa briga para ganhar…


Uma Super 8mm digital? E com lentes clássicas, ainda por cima? Repare na qualidade e tente rir da “piada” …


Mais um teste da Super 8mm em 2.5K. A definição e as cores são absurdas, ainda mais para um protótipo.

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Autor
Paulo trabalhou na Rede Globo de Televisão como roteirista, diretor e editor e também escreveu sete longa metragens do grupo Os Trapalhões. Em 1991, abriu uma produtora nos EUA, onde conquistou vários clientes importantes, recebeu diversos prêmios e escreveu centenas de artigos como editor contribuinte para algumas das mais importantes publicações profissionais americanas e internacionais. Hoje Paulo trabalha como colorista para TV e cinema, com clientes no Brasil, Estados Unidos e Europa.
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10 comentários Nesse post
  1. Que pena….incrível a qualidade realmente.Minha esperança de voltar a filmar em película parece diminuir a cada dia…Foram Boas filmagens com todo o glamour que a profissão merece.

  2. Nasci no filme, mas iniciei a carreira no digital e no meu intimo sei e sempre soube que não trabalharei com a película, pelo preço e pelo conhecimento sobre que não tenho… mas sinto a tristeza da morte do filme, mesmo não tendo conhecido. É algo como aquilo de “ter saudade de tudo que ainda não vi”.

    • Por enquanto as câmeras ainda estão em fase de desenvolvimento. Assim que tivermos alguma informação sobre disponibilidade informaremos aos nossos leitores.

  3. Vocês sabem me dizer onde consigo transformar um vídeo em uma película (rolo) para passar no cinema

    • Caio, você não precisa mais fazer isso. Com a projeção digital se espalhando, você pode simplesmente fazer um DCP ou converter para um dos outros formatos adotados no Brasil. A película só passa a ser mais necessária para filmes de distribuição muito grande, pois a maioria dos cinemas do interior ainda não têm projeção digital. Para fazer essa conversão, você pode procurar uma empresa como a Labo Cine, no Rio de Janeiro.

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