Home Artigos Software O efeito paralaxe

O efeito paralaxe

Ao iniciarmos algum trabalho em vídeo, ao menos a princípio, consideramos somente o material originalmente disponível – as brutas. Entretanto, muitas vezes, ocorre desse material não ser tão legal ou suficiente para a produção. Eu mesmo já me vi em situações onde a escassez de imagens em video era tanta (e em alguns casos até inexistente) que imaginei não ser possível executar um trabalho interessante e completo. Nestas situações, é preciso encontrar uma solução criativa para além do material original. Uma das possibilidades, acaba sendo buscar em imagens estáticas de arquivo, como fotografias, uma maneira de superar esta limitação.

É aí que entra a técnica de paralaxe do movimento aplicada a programas de composição de imagem em movimento, que recorre a princípios científicos da física e da astronomia para criar uma certa ilusão de profundidade a partir de uma cena bidimensional. Por trás do efeito, há sempre a uma espécie de representação do deslocamento de um ponto de vista, como um travelling de câmera, por exemplo. Tudo está baseado no fato de que, quando um observador se movimenta no espaço, acaba havendo um deslocamento de perspectiva com a variação da posição relativa entre os diversos planos de profundidade da cena observada. Na prática, numa observação continuada, os primeiros planos são visualizados se deslocando em maior velocidade do que os planos posteriores e de fundo.

Parallax_Example        Parallax

(Fonte: Wikipedia)

A técnica, velha conhecida da animação convencional, foi bastante explorada por Walt Disney, que inclusive inventou a chamada “camera multiplano” para facilitar a sua obtenção. Depois de alguns anos de construção e testes, o engenhoso dispositivo ficou pronto em 1937 e foi utilizado em filmes como Snow White and the Seven Dwarfs, Pinocchio, Fantasia, Bambi, e Peter Pan. No vídeo abaixo, assista o próprio Walt Disney Estúdios Disney, apresentando sua câmera.

Como você pode conferir lendo um outro post do VideoGuru sobre a revolucionária camera de Disney, essa incrível peça de tecnologia que mudou para sempre a história da animação, décadas depois, viria a servir de modelo de abstração e inspiração para a criação dos aplicativos de composição de imagem em movimento que tanto usamos no nosso dia a dia como, por exemplo, o Adobe After Effects e o Nuke, da inglesa The Foundry.

A técnica de paralaxe do movimento foi também amplamente aplicada ao universo dos games desde os anos 1980, num momento em que a tecnologia necessária para a criação de ambientes tridimensionais ainda estava longe de ser viável. Em 1982, um grupo de programadores da japonesa Irem, desenvolvedora de jogos para arcade, a aplicaram no seu novo lançamento de então, o Moon Patrol, dando um maior realismo ao game por meio da ilusão de profundidade.

Arcade – Moon Patrol (1982)

Atualmente, esta técnica é extremamente útil (e necessária) em motion graphics, principalmente quando usamos fotografias de arquivo para, como expliquei no começo, suprir a falta de imagens de video para documentários, por exemplo. Nesse sentido, pode-se dizer que o procedimento representa uma espécie de evolução do chamado “efeito Ken Burns”. Ao final do processo, temos uma animação que pode ser percebida como slow motion, ou no mínimo, dar vida a uma imagem estática de uma maneira mágica e intrigante.

Joe Fellows, artista inglês de motion graphics, foi chamado pela Ad Hoc Films para produzir uma animação para o que seria a abertura do evento de gala da World Wildlife Fund for Nature e, a partir de centenas de imagens de arquivo da WWF, o artista fez o uso desta técnica para criar algo realmente incrível.

WWF Gala Opening Animation

WWF Parallax Sequence

Ficha Técnica dos vídeos:

Produção e Direção: Dan Glyn AD HOC FILMS

Animação & Composição: Joe Fellows MAKE PRODUCTIONS

Trilha Sonora: Snow Patrol “What If This Storm Ends?”

Fotografia: Julie Larsen Maher © WCS, Liz Bennett © WCS, Rachel Graham © WCS, Cristiån Samper © WCS

 

Saiba como obter o efeito de paralaxe do movimento

O processo é realizado em duas etapas, utilizando programas como o Photoshop e o After Effects (ou outro software de composição de imagem em movimento). No Photoshop, os elementos da imagem que devem ser animados são recortados e isolados em layers; um elemento, uma layer. Após o recorte, é necessário fazer retoques no background para recompor-lo da melhor forma possível (também separado em sua própria layer). Isso permitirá que, ao criar a animação no After Effects, seja possível ver a cena por trás do objeto de primeiro plano.

Uma vez com a imagem pronta, elementos isolados e background retocado, o aquivo .psd é importado para dentro After Effects como composição. Com todas as layers separadas na timeline, habilitamos a opção 3D para todas elas e adicionamos uma câmera.

Como devemos buscar um resultado o mais orgânico possível, existem algumas regras que é preciso respeitar. A layer de background deve ser posicionada bem distante no eixo Z, do mesmo modo que seria na realidade e então redimensionada para recuperar seu tamanho relativo na cena pela visão da câmera. Já o posicionamento e o redimensionamento das layers dos elementos de primeiro plano e de eventuais planos intermediários, são ditados pelas distâncias inferidas de cada um deles entre si e em relação ao ponto de vista da câmera.

paralaxe_after

Com os elementos posicionados, chega a hora de animar a câmera, por exemplo, um pequeno travelling frontal ou lateral, com um keyframe no começo e outro no final. Essa economia de uso de keyframes é super importante para garantir o resultado orgânico desejado.

• • •

No vídeo da WWF, houve a necessidade de animar os elementos vivos (o aspecto mais incrível e impactante da obra, na minha opinião) e para isso, Fellows utilizou a ferramenta Puppet Pin Tool para simular o movimento natural das articulações do sujeito da composição. Nesse caso, os keyframes do Puppet Pin Tool também devem ser criados apenas no início e no final da composição. É realmente muito importante que qualquer movimento seja muito sutil, pois senão, ao assistir a animação, o olhar do observador vai certamente perceber algo estranho, mesmo sem saber exatamente o que.

Um fator decisivo, você deve ter percebido, é a escolha da imagem. É muito importante que ela seja apropriada para que se possa conseguir um belo resultado final. Deve-se evitar imagens muito complexas, que sejam difíceis de recortar ou reconstituir o fundo, e imagens que contenham elementos que já ditam uma perspectiva a priori, com elementos claramente interligados entre o primeiro plano e o plano de fundo como, por exemplo, uma ponte, estradas, linhas de energia, etc. Afinal, é isso que você está buscando ao utilizar a técnica de Parallax, simular a perspectiva a partir de uma imagem sem profundidade.

Utilizado por astrônomos para medir distâncias estelares, presente em web design, no iOS 7, dando um pulo como metáforas em obras literárias de filosofia, de ficção cientifica, e até dando nome a um super vilão do Green Lantern no Universo DC Comics, o paralaxe é realmente um conceito e um aspecto fundamental da maneira como percebemos a realidade, e que nos serve bastante em motion graphics.

Para saber mais visite os seguintes links:

http://www.waltdisney.org/content/multiplane-camera

http://pt.wikipedia.org/wiki/Paralaxe

http://www.makeproductions.co.uk/portfolio/wwf-parallax-sequence

http://cosmiceffect.com.br/2010/08/12/parallax-extreme/

http://www.macworld.com/article/2042808/inside-the-technology-behind-ios-7s-parallax-effect.html

http://www.comicvine.com/parallax/4005-41293/

Gostou do artigo ?

Inscreva-se em nossa Newsletter para receber as atualizações do VideoGuru.

Artigos relacionados
1 5787

Seguindo a tendencia de ofertar pacote de produtos na área vídeo digital, a Red Giant comercializa o Shooter Suite, que traz um conjunto de aplicativos e filtros adequados para produções profissionais. Seus componentes vão desde ferramentas para facilitar a...
0 5412

Não é novidade que o Mocha é a principal referência hoje na área de motion tracking (rastreamento de movimento). O programa já tem uma história e segue se renovando, como faz agora. E muito bem, por sinal, como vamos...
3 comentários Nesse post
  1. Excelente resgate!
    Não conhecia o video da WWF, vou tentar algo parecido no after para experimentar!

Deixa seu comentário

GALERIA

1 4969

A interação entre ação viva e animação tem sido explorada ao longo da história do cinema, com muitos exemplos dos estúdios Disney e o inesquecível "Uma Cilada para Roger Rabbit", dirigido por Robert Zemeckis. O resultado, em geral, é estimulante. Pensando bem, a idéia...
8 5430

Esse vídeo fantástico, feito na Rússia para o lançamento de um projeto imobiliário, foge totalmente dos padrões tradicionais e utiliza a fantasia, com imagens incríveis, no lugar do uso tradicional de plantas e animações dos prédios em computação gráfica....
1 6072

Há algum tempo, publicamos um post com um vídeo do editor Piu Gomes, criado para responder a essa pergunta essencial para quem quer entender a linguagem audiovisual: o que é montagem? Também publicamos, há mais tempo ainda, outro post chamado...