Home Artigos Outros O Fim da Película — Produção da Fuji Termina em 2013

O Fim da Película — Produção da Fuji Termina em 2013

Depois dos fabricantes pararem de fazer câmeras de cinema em 2011, era inevitável que os fabricantes de película seguissem o mesmo curso.

Na nossa matéria Novos Tempos – O Fim da Película e a Revolução Chinesa, anunciamos o que não havia sido amplamente divulgado: o fim da fabricação em série das câmeras de cinema analógicas.

As reações de nossos leitores foram, em grande parte, de tristeza. Afinal, o cinema que conhecíamos até bem recentemente era feito e projetado em película — o mesmo processo que teve início há mais de 100 anos.

Mesmo no início da era digital, trabalhar em película era sinônimo de excelência. A qualidade do negativo e das grandes câmeras e o extenso conhecimento necessário para se tornar um verdadeiro diretor de fotografia de cinema eram fatores contribuintes.

Os orçamentos necessários para se trabalhar com película também tornavam o processo bem mais aprimorado, exigindo grandes cuidados contra desperdícios e possibilitando o uso de equipamentos auxiliares complexos.

Mas o cinema digital veio para ficar. E, com ele, custos mais baixos, equipamento mais acessível e, infelizmente, maior falta de cuidado com a produção em geral.

Enquanto que antes era inconcebível que um diretor de fotografia sério iniciasse uma produção sem antes fazer diversos testes de filmagem com diferentes negativos, hoje vejo (horrorizado) filmagens digitais acontecendo sem que se faça um único teste prévio.

Mesmo quando a câmera utilizada é nova ou diferente, muitos diretores de fotografia já saem filmando direto. O resultado pode ser desastroso. Desde a sub-utilização dos recursos do equipamento até a escolha do equipamento errado resultando, em alguns casos, em material inutilizável.

Portanto, se o digital abre várias portas, também traz consigo uma série de problemas. Por essa e outras razões, a película vai sempre deixar saudades, mesmo que a tecnologia digital a tenha ultrapassado em termos de qualidade.

Por isso, quando a Fuji anunciou recentemente que cessaria a produção de negativos em março de 2013, a esperança de que a película ainda sobreviveria por um longo tempo sofreu um golpe fatal.

O único negativo que a empresa prometeu continuar fabricando é o 4791, um negativo P&B utilizado pelos grandes estúdios para separação digital de cores e preservação de seus preciosos arquivos.

Embora tenha decretado falência, a Kodak aproveitou a situação e prometeu continuar fabricando os negativos semelhantes aos abandonados pela Fuji e assinou um acordo com quatro grandes estúdios para continuar fabricando-os até, pelo menos, 2015.

Acontece que  Kodak tem uma dívida de 26.6 milhões de dólares com esses estúdios, e o acordo pode vir a garantir sua sobrevivência. Mas isso ainda depende da autorização da justiça americana para que tal acordo possa vigorar.

Quer dizer, na melhor (ou pior) das hipóteses, os negativos de cinema estarão disponíveis por mais três anos. Depois disso, ninguém sabe.

Enquanto isso, quem deseja produzir em película encontra condições bem favoráveis. Tanto negativos 35mm quanto 16mm podem ser obtidos com descontos hoje em dia.

A filmagem em câmeras de 3 perfurações, escaneamento digital de alta qualidade e intermediação digital, aliados ao baixo custo do aluguel de câmeras de película, tornam esse tipo de produção financeiramente atraente.

Ou seja, se você sonha em filmar em película, não perca tempo pois agora é a hora. O fim da película se aproxima rapidamente e a mudança é inevitável. Nós que filmamos e editamos com ela, manipulando negativos e cópias, sempre teremos um carinho especial.

Foi filmando em 8mm, ainda criança, que comecei inconscientemente nesta aventura/profissão. Foi debruçado em uma moviola que editei meu primeiro filme. Realmente, há algo mágico em tudo isso que, de certa forma, está indo embora para sempre.

Mas a arte evolui e as ferramentas são apenas veículos para sua expressão. Quando sento em frente à minha estação de trabalho e manipulo as cores de material filmado em uma Arri Alexa no DaVinci Resolve 9, utilizando uma mesa Tangent, não tenho como não ficar maravilhado com as possibilidades.

A magia da película em si pode morrer, mas a magia do cinema continua firme e forte, com recursos nunca antes possíveis. Hoje não é mais o dinheiro que dita a possibilidade de produzir, e sim o talento.

Se a película está morrendo, devemos tratar essa morte com todo o respeito. Assim como um ente querido, nos deixará inúmeras recordações.

Mas a vida continua. E existem inúmeras histórias a serem contadas. Se o veículo de produção passa a ser outro, pelo menos sua evolução é devida aos pioneiros que transformaram uma simples película plástica na forma de arte mais popular que o mundo já conheceu.

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2 comentários Nesse post
  1. A pena é saber que muitos que, assim como eu, estão entrando agora nesse universo mágico terão poucas oportunidades (ou quase nenhuma) de filmar em película…

    • Sim, é realmente uma pena. Mas pense que, em um futuro não tão distante, muitos estarão pensando que nem você e achando uma pena não terem tido a oportunidade de filmar em digital. A película durou mais de 100 anos. Mas a evolução tecnológica anda cada vez mais rápida. Quantos formatos eletrônicos já nasceram e morreram nos últimos 20 anos? Nem dá para imaginar o que virá pela frente…

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