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O ofício do corte

“Como montador, às vezes me identifico com Caronte, o barqueiro de Hades que na mitologia Grega fazia a travessia das almas sobre as águas dos rios que separam o mundo dos vivos do mundo dos mortos.”

Um de meus diretores favoritos, Alexander Payne, afirmou certa vez que depois de passar pelo calvário da pré-produção e filmagem, ao chegar na ilha de edição se sente como um sobreviente, um náufrago que alcançou a praia. Claro que nem todo diretor se identifica com essa perspectiva, acredito que nem o próprio Payne a tenha como regra.

Dirigi muito pouco na vida, ainda que tenha atuado por dois anos como assistente de direção antes de virar montador. Mas acho que entendo o que o diretor de Nebraska quis dizer. Insistindo nessa metáfora do náufrago-diretor que venceu a tormenta do Set de filmagem, vejo o montador como um habitante da ilha, um nativo que pode ajudá-lo a sobreviver e voltar pra casa para contar uma história.

carontes

Ilustração mostrando Caronte, personagem da mitologia grega.

Pode-se encarar o processo de montagem como essa jornada de retorno ao Lar, porém um novo Lar que ainda não existe. O náufrago está a meio caminho da Terra Prometida, um mundo imaginado pelo autor do filme e que é ainda mais promessa do que realidade. A minha missão como montador é ajudá-lo a navegar nesse turbillhão de possibilidades de articulação de imagens e sons, mergulhar no inferno de incertezas, feridas abertas, neuroses obsessivas semeadas entre decisões apressadas no pandemônio da filmagem ou antes ainda, enfrentando assombrações, pesadelos e fantasmas que só quem ousa dirigir um filme conhece: o plano que faltou, o limite do orçamento, aquele problema no roteiro, o ator que não funciona, a locação que caiu, a quebra do eixo, da continuidade, das pernas… a insana labuta de talhar realidade a golpes de sonho, paixão e vontade.

Rumo ao desconhecido, ao lar que ainda não existe, a jornada é longa, a correnteza é forte, o tempo; curto. Sempre. Nosso barco é feito de fé em Griffith, Eisenstein, Bazin, Godard e outros semi-deuses. As velas são tecidas a base de técnica e intuição cultivada em anos luz. Nosso mapa nos mostra a posição das estrelas, a mente previsível do espectador de cinema contemporâneo. O material bruto nos serve de bússola e, o mais importante de tudo, o destino da viagem, quem nos aponta é o grande espírito encarnado nesse Filme ainda em estado embrionário

Alfredo_works

Alfredo Barros (centro) durante uma sessão de edição do longa Entreturnos, dirigido por Edson Ferreira (dir.) e com assistência de montagem de Felipe Iesbick (esq.).

Diretor e montador unem esforços para interpretar as mensagens encriptadas que essa entidade-semente de miragens tenta nos transmitir. E é nessa espécie de comunicação alienígena que cada filme nos solicita e desafia  em um idioma particular e único. Cabe a nós a disposição para compreender e nutrir de oferendas esse etéreo ser divino com o que quer que o alimente e satisfaça. Em que ritmo deseja ser embalado? De que conexões e sentidos se compõe o ar que respira? De que dores e deficiências sofre? O que nos sugere para aplacá-las? Que tratamento e forma mais o agrada ser podado?

Se tudo der certo, e sempre dá, o nosso porto de chegada, nosso Lar, a tela do cinema, TV, internet, celular, retina, o fim da jornada do naufrago herói haverá de nos receber com uma ótima história para contar, divertir, emocionar e lavar a alma.

• • •

Nota do editor: Alfredo Barros é um amigo querido, de longa data, um dos grandes nomes da montagem contemporânea brasileira, com atuação a partir de Porto Alegre, RS. Nos encontramos pessoalmente talvez uma ou duas vezes em cerca de 12 anos, mas compartilhamos muitos sonhos e idéias, ainda que à distância. Alfredo foi um dos pioneiros no uso do Final Cut Pro clássico na montagem de cinema no Brasil. Criou a famosa lista FinalCut-BR no Yahoo, onde ajudou muita gente a aprender a editar. Há muito venho convidando-o a escrever para o blog, e foi com muita satisfação que recebi essa preciosa colaboração. Quero aqui agradecer de público a Alfredo pelo carinho de me permitir publicar esse texto originalmente escrito para o seu novo site pessoal. (João Velho)

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3 comentários Nesse post
  1. Texto bacana! E a título de curiosidade… Qual seria o endereço desse site pessoal do Alfredo mencionado pelo João Velho na Nota do editor?

    • Boa pergunta. Mas eu acho que ainda não está pronto. Vou procurar saber e depois coloco aqui no post.

  2. Segue meu site: http://www.alfredomontagem.com

    O Giba sugeriu que a partir de agora eu devia colocar uma placa na porta da ilha avisando aos diretores que não entrem sem ter uma moeda embaixo da língua… hehehe! Daí eu acrescentei essa frase no final do texto:
    “Aos diretores, um aviso: ao embarcar, não esqueçam de trazer uma moeda embaixo da língua…”

    Abraços

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