Home Galeria Reflexões sobre a montagem

Reflexões sobre a montagem

Quando comecei a escrever esse post, logo imaginei um sub-título: aprendendo com quem aprende. Isso descreve bem o que a gente sente quando vê o filme “Lapidar o Bruto”, da paulista Natália Queiroz.

Afinal, este curta-metragem de 15 minutos foi feito em 2009 como um trabalho de conclusão de curso de graduação em cinema na Faculdade Anhembi-Morumbi. O resultado foi tão bom que o filme transpôs os limites do meio acadêmico e ganhou um prêmio de Melhor documentário em vídeo no Festival de Ribeirão Preto .

“Lapidar o Bruto” agora está na web, e foi assim que soube dele, por indicação de outros colegas no Facebook. Assisti e percebi que o filme caberia bem aqui no Videoguru.

O nome do filme também traz uma outra inevitável associação, dessa vez com o título do fantástico livro de Andrei Tarkovisky, “Esculpir o Tempo”. Ambos falam do filme como uma escultura.

O filme de Natália, nesse sentido, tem um aspecto metalinguistico. É uma “montagem” sobre a montagem. A proposta é simples, mas sofisticada, uma combinação quase sempre fadada ao sucesso, ao menos foi assim no caso de “Lapidar o Bruto”.

Agora, depois de ver o filme, achei que o leitor iria gostar de saber o que Natália pensa dele e da experiência de te-lo feito. O Videoguru foi atrás dela, e fez quatro perguntas.

Videoguru – Fale um pouco de você e do seu trabalho.

Natália – Me formei em cinema em 2009 e trabalhei intensamente na produção de meu TCC, um documentário sobre o papel dos montadores dentro do processo de feitura dos filmes, com o qual recebemos o prêmio de melhor documentário num festival em Ribeirão Preto em 2010.

Neste mesmo ano atuei em dois Telefilmes para a Tv Cultura, no primeiro como assistente de produção e no segundo como assistente da montadora Cristina Amaral.

Também integrei a equipe de produção de um programa intitulado Novolhar Na Tv, que fazia parte da grade da TV Puc no Canal Universitário em 2007. Tive uma experiência também na área de edição na produtora Olhar Imaginário do diretor Toni Venturi.

Em 2012 trabalhei como estagiária de produção na produtora O2 passando em seguida para a área de pós-produção.

Atualmente trabalho como assistente de redação e edição.

Videoguru – Como surgiu a idéia de fazer o filme e como foi o processo de realização?

Natália – Entrei na faculdade com uma única certeza, a de que gostava de documentários. Naturalmente meu projeto de tcc seria de gênero documental, mas levei algum tempo até descobrir qual seria o tema.

Um dia, enquanto lia Técnicas de Edição Para Cinema e Vídeo, tive um insight. Por que não apresentar  o projeto de um documentário sobre a importância da edição e do papel do montador dentro do processo de feitura do filme?

Dessa forma eu estaria chamando atenção para uma questão importante para mim, que já era uma aspirante a montadora, e me valendo da linguagem documental que sempre me interessou.

A primeira montadora que me ocorreu entrevistar foi a Cristina Amaral, com quem no mesmo instante entrei em contato para falar sobre a idéia que havia acabado de ter. Depois de alguns dias ela aceitou participar, o projeto foi aprovado e tive a felicidade de contar também com as entrevistas de Mauro Alice, Idê Lacreta, Paulo Sacramento e Estevan Santos.

Videoguru – O que você poderia dizer dessa experiência de montar um filme sobre montagem?

Natália – O processo de edição foi bastante intenso, com suas dores e delícias. Aquela era a primeira vez em que mergulhava de cabeça num projeto que além de ser de minha autoria representava tanto para mim pelo tema que abordava.

Eu tinha um discurso para construir e, para articulá-lo, me utilizei das idéias dos montadores que entrevistei, que condiziam com o que eu pensava e gostaria de expressar com o filme.

A intenção era dar voz aos montadores, ouví-los falar sobre seu ofício. Deixar claro que são seres pensantes, que a função do montador não se restringe a apertar teclas e seguir um roteiro. Ele está ali para fazer um trabalho de observação, articulação. Seu dever é extrair do material bruto o que ele traz de melhor. Ele realmente “lapida”. É uma tarefa intelectual, que exige também sensibilidade.

Acredito que quando se têm a oportunidade de trabalha para dar vazão a um discurso em que se acredita, mesmo que isso não venha a mudar o mundo ou a percepção das pessoas, como suspeito que sonha secretamente qualquer pessoa que se aventure a fazer um documentário, a tarefa de montar se torna ainda mais prazerosa e o trabalho mais honesto.

Videoguru – O que de mais importante você considera que aprendeu ou descobriu com a realização do filme?

Natália – Acredito que só me certifiquei do que já desconfiava. Todo documentário levanta uma bandeira, busca chamar a atenção de quem o assiste para um ponto de vista, realidade ou filosofia. É uma forma mais direta de expressão, sem floreios, mas nem porisso precisa possuir um caráter duro.

Além disso pude  notar o que o próprio Mauro Alice comenta num trecho: ‘’O filme nasce na montagem, o roteiro é sua gestação’’.

• • •

Bem, esse é o filme e essas são as idéias da Natália. O Videoguru agradece a sua presença no blog e deseja todo o sucesso na sua promissora carreira.

 

Gostou do artigo ?

Inscreva-se em nossa Newsletter para receber as atualizações do VideoGuru.

Artigos relacionados
1 5074

A interação entre ação viva e animação tem sido explorada ao longo da história do cinema, com muitos exemplos dos estúdios Disney e o inesquecível "Uma Cilada para Roger Rabbit", dirigido por Robert Zemeckis. O resultado, em geral, é estimulante. Pensando bem, a idéia...
8 5531

Esse vídeo fantástico, feito na Rússia para o lançamento de um projeto imobiliário, foge totalmente dos padrões tradicionais e utiliza a fantasia, com imagens incríveis, no lugar do uso tradicional de plantas e animações dos prédios em computação gráfica....
13 comentários Nesse post
  1. Sou um novato aliás, novatíssimo no VideoGuru. Não lembro como consegui chegar até ele; entretanto, é fato, em tão pouco tempo de frequência, sinto um grande respeito e admiração pela postura do blog e seus assuntos. Pelo vein aqui, vcs estão de Parabéns.
    Sobre o documentário da Natália, se vein quiser encaminhar uma msg pra Ela, tem q ser através do VideoGuru ?
    Aguardo, Obg, Babojuc

    • Babo, me passa o seu email pelo link de contato do blog, que eu envio para a Natália, OK. Valeu pelo apoio!

  2. uummm, gostei do depoimento dado pela Natália, acho que ela falou tudo em alguns trechos sobre a questão do documentário.
    ‘Eu tinha um discurso para construir e, para articulá-lo, me utilizei das idéias dos montadores que entrevistei, que condiziam com o que eu pensava e gostaria de expressar com o filme.’
    “(…) Acredito que só me certifiquei do que já desconfiava. Todo documentário levanta uma bandeira, busca chamar a atenção de quem o assiste para um ponto de vista, realidade ou filosofia. É uma forma mais direta de expressão, sem floreios, mas nem porisso precisa possuir um caráter duro. Além disso pude notar o que o próprio Mauro Alice comenta num trecho: ‘’O filme nasce na montagem, o roteiro é sua gestação’’.”

    Legal! os últimos trechos lembra qdo. eu pesquisava e fazia a pré-produção dum documentário. Aliás, ainda tô fazendo, porém dando um tempo pra poder retomar…

      • uai??? acho que vc que não me entendeu. Fiz comentários acerca da entrevista que o VideoGuru fez com ela.

        Agora, o TCC dela (na forma de/ou em linguagem vídeo), ou seja, curta-metragem concoreu e ganhou em festivais na categoria Doc., não foi? ou melhor, siiiiimm?

        Creio que é isso. Bom.., depois se falamos…

        • Ok, sem problemas. Às vezes é dificil entender as pessoas via comunicação virtual por texto. Fique à vontade e obrigado por prestigiar o Videoguru.

          • opa!!! com certeza ainda volto mais vezes aki, principalmente, ou não somente pelos Newsletters recebido, mas percebi que tem textos bons que pode ajudar. Ainda mais porq tô cum iMac 27″ aki e mal usei-o ainda na sua totalidade diante do que pretendo.

  3. Muito bom! Posso pegar o contato da Natália pra uma entrevista para o blog onde eu escrevo, o Choco La Design?
    Parabéns sempre pelo blog, sou fã do João Velho desde novinho =]

  4. Acabei de assistir o documentário e fiquei com um gostinho de que ele poderia fechar em 30 minutos. A leveza dessa montagem e as idéias dos montadores davam pra render muito mais com certeza. Adorei o filme.
    Trabalho com montagem desde 97 e sentia falta que alguém com talento mostrasse a todos ( especialmente aos diretores egocêntricos e insensíveis de plantão ) que a montagem é de fato, muito mais que apertar botões, é de fato, PARIR.

    Parabéns pelo Post

Deixa seu comentário

GALERIA

1 5074

A interação entre ação viva e animação tem sido explorada ao longo da história do cinema, com muitos exemplos dos estúdios Disney e o inesquecível "Uma Cilada para Roger Rabbit", dirigido por Robert Zemeckis. O resultado, em geral, é estimulante. Pensando bem, a idéia...
8 5531

Esse vídeo fantástico, feito na Rússia para o lançamento de um projeto imobiliário, foge totalmente dos padrões tradicionais e utiliza a fantasia, com imagens incríveis, no lugar do uso tradicional de plantas e animações dos prédios em computação gráfica....
1 6187

Há algum tempo, publicamos um post com um vídeo do editor Piu Gomes, criado para responder a essa pergunta essencial para quem quer entender a linguagem audiovisual: o que é montagem? Também publicamos, há mais tempo ainda, outro post chamado...