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Vida de Artista de Vídeo

O VideoGuru apresenta um novo colaborador, André Sheik. Ele vai cobrir uma área de criação super importante para o vídeo digital, que é a chamada “videoarte”. O Brasil tem tradição nesse campo do cruzamento das artes visuais e da poesia com o audiovisual, e o movimento continua vivo e se renovando. Sheik faz parte de uma leva mais recente de videoartistas, é bastante ativo e conhece muita gente no meio.

Não apenas produz seus próprios trabalhos como colabora com outros artistas em suas incursões em vídeo. Damos as boas vindas ao Sheik, que estréia aqui com um artigo bem adequado para o início de sua colaboração com o VideoGuru. No texto que você vai poder ler em seguida, Sheik fala das dores e delícias (mais das dores do que das delícias) de trabalhar com videoarte no Brasil. Para conhecer mais da produção do artista, acesse o seu canal no YouTube.

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Bom, não sei como era muito antigamente, mas creio que cada época tem suas especificidades em matéria de dificuldades. Nos idos de 1999, quando eu comecei nas artes visuais, na pintura, tradicionalmente, havia dois tipos de tinta: acrílica e óleo. Claro, já se pintava com borra de café e com tudo que imprimisse cor ou mancha em uma superfície. Até porque, os índios usavam urucum bem antes das telas em chassi e com moldura, mas isso é uma outra – longa – história.

Quando eu fiz meu primeiro trabalho em vídeo, em 2001, havia uma série de formatos de filmadoras, a maioria com fita magnética. No entanto, a MiniDV tinha uma qualidade razoável, por um preço idem. Hoje em dia, há tantos formatos de filmadoras e de arquivos digitais quanto se possa imaginar. Preço a se pagar pela popularização da tecnologia digital.

Onibus_Stills_Duplo_1

André Sheik, díptico da série Videoperspectiva, “Ônibus”, 2010

O artista inventa um problema que não existe, colocando-o no mundo, e somente ele – artista – é capaz de solucioná-lo. Quando nos lançamos no desconhecido, nem sempre sabemos como começar, imagine terminar. Minha escola é a de aprender fazendo. Não desprezo os estudos nem a história. Tenho certeza que o mundo em que fui criado – avô com filmadora, pai repórter fotográfico e mãe produtora de cinema – contribuiu no desenvolvimento de noções de enquadramento, para dizer o mínimo.

Dia desses, uma artista me pediu para fazer uma filmagem para ela. Havia criado uma instalação na qual queria projetar dois peixes em uma piscina rasa, em um local com quatro metros de pé-direito. Às vezes, os artistas chamam outras pessoas para ajudar a resolver o problema que criaram. Posso imaginar que alguém no mundo já tenha feito filmagem semelhante a essa dos peixes, o que não me ajuda, a despeito da internet ser ótima fonte de respostas. E as perguntas são muitas: os peixes terão, na projeção, tamanho real?; qual a câmera ideal para filmar?; que lente utilizar?; qual equipamento de projeção será usado e a que distância ele será instalado? etc.

Fernanda_Junqueira_redux

Imagem de trabalho em que Sheik colaborou com a artista Fernanda Junqueira – still do vídeo para a exposição “Jardins Submersos”, 2014.

É possível que, se eu fosse graduado em Cinema, já soubesse responder esses questionamentos, mas não tenho como garantir. Lembro-me da artista me fazendo essas e outras perguntas, para as quais eu não tinha resposta prévia. Disse-me que havia me chamado por causa da interlocução, por eu ter uma visão artística, ou, caso contrário, teria contratado alguém com maior conhecimento técnico. O desconhecido é vasto, posso contribuir com meu olhar aguçado, meu destemor e minha curiosidade. E alguma experiência prévia. O fator determinante para a escolha da câmera e do local de filmagem foi o orçamento. O prazo e a verba são dois balizamentos poderosos.

Os artistas contemporâneos, de um modo geral, não são especialistas. Desde que a minha MiniDV pifou, e eu não tive dinheiro para mandar consertá-la – outra característica predominante no meio artístico: baixo orçamento –, eu tenho feito meus trabalhos com telefone celular. Mesmo que eu tivesse outra câmera, há situações em que só há o celular, quase sempre ligado e à mão. O gesto de tirar o aparelho de onde ele estiver – bolso, cinto ou bolsa – é automatizado (pois já é habitual). É só sacar e filmar aquela cena que, dificilmente, irá se repetir. Não ter dinheiro para contratar profissionais hiper-gabaritados, alugar equipamentos sofisticados, estúdios profissionais e tudo o mais é um aspecto que pode contribuir, criativamente, no resultado final da obra.

Linha, de André Sheik,  2008

Música Para os Olhos, de André Sheik, 2003

Siga o Coelho Branco, de André Sheik, 2013

Depois de filmar, seja com o equipamento que for, vem a tarefa de editar. Novamente, muitas opções. Há os programas padrão, aqueles que todo mundo quer – ou gostaria de – ter e saber usar. E não vou nem mencionar os efeitos especiais e a computação gráfica. Eu costumo começar com o mais simples, copiar e colar, sem fusão, uma sequência atrás da outra. Não gosto de muita papagaiada. E eu tenho o hábito de filmar editando, i.e., eu filmo já com a ideia final na cabeça, registro o mínimo para depois não ter que assistir a infindáveis horas de material a selecionar. Cada um vai inventando o próprio método. Eu mesmo não sigo apenas esse que citei. Ajuda ter assistido a muitos filmes? Sim, mas, se você andar somente seguindo as pegadas dos outros, você só vai até onde os outros já foram (como disse não sei quem que não me lembro).

Prefiro não fazer, eu mesmo, a edição do que filmei, não meter a mão no computador. Não consigo pensar como técnico e criador ao mesmo tempo. Podendo contar com a ajuda de um amigo com mais experiência para editar, prefiro. E, para mim, trabalhar com um editor que também seja artista é muito melhor, mais simples, não preciso ficar explicando ou argumentando. Nas poucas vezes em que recorri a um editor – especialista – que não tinha uma produção autoral, o diálogo foi mais truncado, demorado. Assim, filmo, ou alguém filma (prefiro filmar, mas nem sempre posso atuar e filmar), seleciono as imagens e, na hora de operar o equipamento na montagem do filme, crio junto com o editor, que percorre muito mais rápido do que eu os caminhos no teclado e nos meandros do programa de edição. O trabalho do artista costuma ser solitário, mas os que trabalham com vídeo tendem a se aproximar do método colaborativo do cinema (ou da televisão).

Registro da exposição Videoperspectiva, de André Sheik, no Oi Futuro (2010)

Tudo filmado e editado, é preciso preocupar-se com o modo de exibição. Também muito antigamente – em se tratando de avanços tecnológicos – existia o DVD e nada mais. Colocar computador em exposição era insanamente caro, portando, só havia mesmo, como possibilidade, o player de disco. Hoje, os formatos dos arquivos digitais, as televisões e projetores, os tocadores de arquivos em suportes de armazenamento e os de discos diversos, os computadores e suas programações, tudo isso é incontável, uma cosmologia infindável e insondável como o universo. Da mesma maneira que o pintor Vincent van Gogh escolhia qual moldura iria ser usada em cada quadro, o suporte de exibição do vídeo faz parte da obra.

E, se quem faz os filmes nem sempre consegue compreender a extensão das questões envolvidas, menos ainda o sabem os intermediários do sistema, aqueles que irão receber o material e passar para o exibidor, seja uma instituição de arte, colecionador ou o que seja. O artista tem que se preocupar com todas as etapas do processo, e tentar obter todas as informações, de modo a controlar a qualidade final de exibição do trabalho dele. Não, não é tarefa simples nem fácil.

Você chegou até aqui, concebeu uma obra de arte, filmou, editou e consegui apresentá-la publicamente, muito possivelmente tendo pagado do seu próprio bolso, com sorte, colocou em um edital e não teve que bancar os custos, mas, provavelmente, não recebeu remuneração, apenas não gastou. Agora, talvez cogite vender o seu trabalho em vídeo. É melhor começar a pintar. O chamado mercado ainda tem dificuldades com vídeo, videoinstalações e afins. São poucos os colecionadores que compram vídeo, e as instituições e suas museologias têm dificuldades com a conservação (em parte, devido à evolução da tecnologia), para dizer o mínimo.

Marcos_Chaves

Imagem de trabalho em que Sheik colaborou com o artista Marcos Chaves – Sem título, d’après Robert Mapplethorpe, 2005.

Assim, este texto, recortado e montado, falando de algumas das agruras da vida do artista de vídeo, não chega – e nem pode chegar – a uma conclusão única e final. A tecnologia digital veio para ajudar a tornar o sonho de “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” viável, mas, enquanto “sonhar não custa nada”, o preço a se pagar por ser artista não é pequeno. É dura a vida de artista de vídeo.

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