Home Entrevistas Videoguru entrevista: Cavi Borges, diretor e produtor — parte 1

Videoguru entrevista: Cavi Borges, diretor e produtor — parte 1

Cavi Borges não parece um cineasta, mas é. Parece um atleta de judô, e já foi um dia. Seja de um jeito ou de outro, Cavi é único.

De dono de locadora a produtor e diretor, sua prolifica carreira se faz de um modo todo especial, e vai na velocidade com que fala das coisas, de si, e de seus projetos.  Você pode gostar dele, ou não gostar. Mas não dá para ignorar.

O Videoguru conversou com Cavi na nova casa que ocupa, com sua produtora e seus outros negócios ligados a cinema. Lá, ele reconstruiu o seu canto, bem parecido com o que tinha quando trabalhava numa sala na Cobal. Mil reuniões, pessoas esperando.

Esse é Cavi Borges, um dos caras mais emblemáticos da força da revolução do vídeo digital, com um cinema de guerrilha, coletivo, cooperativado. Foram 25 minutos de uma metralhadora de idéias e palavras que estão transcritas abaixo.

Cavi começou com o cinema digital, segundo ele, pela exibição. A partir da sua locadora de filmes na Cobal do Humaitá, no Rio de Janeiro, ele começa a promover exibições de filmes e envereda por uma espécie de cineclubismo digital, unindo asfalto e favela.

Daí, em 2002, ele resolve fazer seu primeiro curta. Ele vai ao Japão lutar judô, e compra uma câmera digital pra fazer os seus filmes, e de seus muitos amigos e parceiros. E daí não parou mais.

Videoguru – Como é para você essa coisa do cinema digital?

Cavi – Cinema até antes de 2000 era coisa basicamente de rico, gente que tinha grana, ou era articulado e ganhava edital. Você não conseguia ver um maluco de comunidade ou classe média baixa fazendo cinema porque era uma coisa cara.

Aí quando chega 2000 e vem todas essas cameras digitais, o Final Cut, você podendo montar uma ilha de edição na sua casa, projeção digital, Youtube, todos esses instrumentos que são de origem digital, a coisa começou a mudar. Aí eu acho que o cinema começou a ser uma coisa mais acessível, mais democrática, tipo não era mais só os ricos que faziam cinema.

Começou até a surgir esse cinema de periferia. O marco desse cinema é 2002, com o filme Cidade de Deus, que foi uma coisa assim que chamou atenção, e que depois os próprios atores foram pra trás das cameras, quando criaram o “Nós no Cinema”, que agora é “Cinema Nosso”.

E daí começaram a ter grupos em comunidade, cineclubes, e essas pessoas começaram a fazer cinema, uma coisa que até então era muito distante do universo deles.

E hoje, 10 anos depois, você já vê essa geração que nasceu em 2000 nas comunidades, eu tô me referindo mais às favelas, eles estão fazendo seus primeiros longas.

Isso é uma coisa que vai cada vez crescer mais, e acho que vai começar mesmo a transformar a linguagem do cinema.

E a Cavideo acabou que se juntou a essa galera, tanto de favela como a galera mais alternativa, digamos assim. A gente só trabalha em função do digital. A Cavideo já fez oitenta curtas, nenhum deles foi fimado diretamente em película.

O proprio “Distração de Ivan”, que a gente ganhou o edital da Petrobrás e podia ter filmado em película direto, a gente preferiu filmar em digital para poder filmar mais, ter mais liberdade, poder deixar aberto pra o documental surgir alí nos jogos de futebol, e tal, e depois passar para película, que era uma coisa imposta pelo edital da Petrobrás.

Isso era bom porque até uns três anos atrás os festivais diferenciavam o digital e a película, mas hoje em dia o próprio Festival de Brasilia, que é o maior festival, mais tradicional do Brasil, não tem mais essa diferenciação. Curta, não importa mais se é película ou digital. E também tá abrindo pra projeção digital. Em Gramado tudo tinha que ser projeção de película, agora não tem mais isso.

Hoje em dia você até discute, porque é que eu vou fazer o meu filme em película? No “Distração de Ivan”, eu gastei R$40.000 só pra passar o meu filme para película. Com R$40.000 dava quase para eu fazer um outro curta.

Cinema não é o formato, né… Eu criei uma técnica chamada “tosco transfer”, que eu passava pra película, só pra eu poder me beneficiar nos festivais. Mas não faz sentido nenhum, porque o filme era digital, pensado para filmar em digital. Eu só dava um upgrade de passar pra película porque dava status pro filme, fazia o filme ficar mais importante.

Era o que eu tava discutindo: “virei cineasta, não virei videomaker”, sei lá como chamam. Eu não gravei, eu filmei, é ridículo isso, porque no fundo tudo é cinema, né? O que tem ser discutido é o que o que tá sendo falado ali, mostrado alí, o instrumento cinematográfico, a linguagem.

Isso demorou 10 anos para as pessoas aceitarem, os mais tradicionais, todo mundo torceu o nariz no início, tentou segurar o máximo possível, mas não tem pra onde sair, cara. Eu tava lendo uma pesquisa, nos EUA já tem 70% das salas digitalizadas, e o Brasil só tem 30% das salas digitalizadas. Daqui a pouco não vai ter mais filme em película, e o Cinemark, esses lugares que não têm cinema digital, ou mudam ou não vão ter filme pra passar.

A minha própria locadora vai acabar, vai ser tudo streaming, online. E aí já tamos falando de distribuição, entendeu? Eu já sei de um projeto que tá rolando de distribuição via streaming só de filme brasileiro.

Então, é mais barato, a qualidade tá se aproximando muito, cada vez mais. O pessoal diz que a qualidade é ruim. A qualidade de captação já não é ruim. Tem essas cameras 4K, que a qualidade não é ruim, é quase igual o melhor do que a película. Ah, mas a projeção é ruim.

Tudo bem, as salas de projeção brasileiras, elas pegam os projetores mais vagabundos, mas eu estive em Cannes, a qualidade de projeção lá era tão boa, que eu tinha dificuldade para perceber qual era o filme em pelicula e qual era o filme digital.

Mas aí depende do cara querer investir. Um projetor digital fodão é R$300.000, enquanto que você consegue botar um projeto de 5.000 Ansi Lumens que é R$20.000.

Daqui a pouco vai mudar tudo. Esse daqui a pouco que eu falo é 3, 4 anos no máximo, entendeu? Não tem mais como fugir. As empresas que produzem em película estão se transformando, se adaptando. A película, daqui a pouco vai ser igual ao que o super-8 é, uma coisa estética, uma escolha estética, vai ser meio cult filmar em película, mas cada vez vai ser mais difícil.

E o digital está cada vez mais fácil. Chegou uma camera agora aqui que a qualidade é igual o superior à película e super acessível. Cameras fotográficas, 5D, 7D, com que todo mundo tá fazendo filme, você acopla as lentes, parece película também. Camera fotográfica fazendo filme, olha que louco.

(a entrevista continua na publicação da parte 2)

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