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Videoguru entrevista: Jarbas Agnelli, diretor e músico

Jarbas Agnelli é uma referencia obrigatória no audiovisual contemporâneo brasileiro. O Videoguru finalmente conseguiu que ele arrumasse um tempinho na sua agitada agenda para uma rápida entrevista.

Conheci o trabalho de Jarbas quando estava fazendo pesquisas para a minha dissertação de mestrado sobre motion graphics há alguns anos atrás. Me impressionaram alguns comerciais que ele criou usando o After Effects quase que sozinho, sendo que um deles, o Kleenex Azarado, que ele executou em um fim de semana (inclusive a música), levou o Leão de Ouro de Cannes.

Logo saquei que estava diante de um cara genial, sem nenhum exagero ou puxação de saco. Resolvi utilizar seu trabalho na dissertação, e Jarbas foi super-atencioso, disponibilizando os vídeos e respondendo um questionário sobre seu processo de trabalho, junto com outras feras do motion graphics no Brasil, assim como o Carlos Bela, outro colega que já entrevistei aqui.

O tempo passou, e continuo acompanhando e me surpreendendo com seus trabalhos. E ele continua colecionando premios e admiradores, agora com repercussão internacional através da web, em festivais como os do Youtube e no seu canal do Vimeo. Sua última obra prima, The City of Samba, recentemente, entrou para a galeria do Videoguru.

Na entrevista que se segue, Jarbas fala do seu percurso profissional, das seus trabalhos mais recentes e daqueles que mais se destacaram ao longo da sua carreira, e dos seus projetos para 2012. Entre uma pergunta e outra, você vai poder conhecer alguns trabalhos essenciais dele.

Azarado, comercial para o Kleenex

Imagine, comercial para o Submarino

Videoguru – Você veio da publicidade e acabou se especializando em criações para vídeo. Como foi esse percurso?

Jarbas Agnelli – Sempre gostei de cinema. Ganhei uma câmera de Super 8 de meu pai com uns 10 anos de idade e nunca mais parei de experimentar. Na publicidade, passei de diretor de arte, que fui por 17 anos (13 dos quais na W/Brasil) para diretor de cena, onde estou há 11 à frente de minha produtora, o AD Studio – usando todos os recursos da computação na finalização, como 3d, composição digital, motion design, etc. Para aprender, sempre exercitei muito, fazendo clipes e projetos pessoais. No meu ramo é importantíssimo experimentar, aprender, desenvolver técnicas e idéias. E eu adoro criar usando filme e música, que é outra paixão minha. Desenvolvi técnicas de criar e produzir fazendo as duas coisas ao mesmo tempo, que é o que eu faço tanto na publicidade quanto em trabalhos pessoais.

Jarbas e sua equipe numa filmagem

Videoguru – Mal começou 2012 e você apresentou um trabalho de peso, o The City of Samba. Como foi fazer esse vídeo e como está sendo a repercussão?

Jarbas – A resposta para ambas as perguntas é: incrível. Produzir o video foi uma aventura inusitada. Conheci o australiano Keith Loutit pessoalmente no Youtube Play Guggenheim, onde ambos fomos vencedores, eu com Birds on the Wires e ele com Bathtub IV. Combinamos de fazer o Carnaval no Rio, usando a técnica pelo qual ele é conhecido, tilt-shift. No carnaval do ano passado, captamos as imagens, tanto do Sambódromo, quanto de paisagens do Rio. Durante um ano, preparamos o material (cerca de 170 mil fotos), discutimos o que fazer com ele. E eu pensei em possibilidades de trilha. Na véspera do carnaval desse ano, finalizamos o video. Eu finalizei a edição, e ele, lá de Cingapura, decidiu comigo os caminhos, também me ajudando no tratamento das imagens. Compus a trilha nesse mesmo período, gravando com músicos de orquestra. Foi uma bela parceria. Aprendi muito.  E aí veio essa surpresa de explosão de views. 1 milhão só no Vimeo, em um mês. Muito rápido. Fantástico. Conseguimos dar outra perspectiva a uma festa e uma cidade muito vistas, fotografadas, conhecidas, e isso é muito compensador. Conseguir fazer algo fresco e inovador hoje em dia é muito raro.

Birds on the Wires, curta de Jarbas Agnelli

Palestra de Jarbas Agnelli no TEDxSP sobre o Birds on the Wires

Videoguru – O The City of Samba é mais um trabalho seu voltado para a internet, assim como o “Birds on the Wires”. Como é para você essa coisa de produzir especificamente para a web?

Jarbas – Quando estou fazendo não penso que estou produzindo para a web. Penso que estou criando, gerando, finalizando, primeiro para mim. Quando fiz Birds, nem pretendia postar, a princípio. Era uma brincadeira pra mim mesmo. Quase um teste. Mas ví que ficou bacana, e aproveitei os canais que hoje existem como Vimeo e Youtube. São ferramentas de divulgação que me interessam muito, pois permitem uma troca riquíssima e inimaginada há alguns anos atrás. Hoje em dia há um canal aberto entre o artista e seu público, ou entre artistas e outros artistas, sem atravessadores, sem burocracia, sem complicação. Isso é muito enriquecedor. Em todas as esferas. Do profissional, ao amador, ao iniciante, ao interessado.

Clipe Anormal – Banda Pato Fu

 

 Instinto Coletivo – O Rappa

Videoguru – Que outros trabalhos de vídeo que você criou ao longo da sua carreira você também destacaria, e o que eles representaram pra você?

Jarbas –  No início, foram os video clipes, como para o Pato Fu (Made in Japan, Anormal) ou para O Rappa (Instinto Coletivo). Aprendi, me desenvolvi, ganhei prêmios e abri portas com eles. Na publicidade, os comerciais que fiz ainda em meu estúdio em casa também foram importantes, como “A Semana” para a revista Época, que ganhou todos os prêmios internacionais possíveis, ou a campanha de lançamento da fnac no Brasil. Durante essa década de AD Studio, dirigi cerca de 450 comerciais. Gosto de muitos deles, como toda a campanha de Itaú Personnalite, de 2007, 2008, 2009, 2010. Além de muitos outros, como Visa Minuto, de 2004, ou Kleenex Azarado, de 2005. São trabalhos de direção onde havia bastante espaço para criação, que é um lado que eu nunca abandonei. E esse lado me levou a produzir coisas em casa, como Birds, City of Samba, ou a série The Mini Adventures of Nina, minha filha, uma brincadeira divertida com fotografias.


A Semana, comercial para a Revista Época

Videoguru – Você transita por várias linguagens e técnicas, opera softwares, e mistura tudo com seu lado musical, que é bastante forte. O que você gosta mais de fazer e como prefere trabalhar atualmente?

Jarbas – Sempre fui apaixonado por tecnologia. E por música. Mas meu objetivo final foi sempre a criação. Não posso dizer que sou um especialista em alguma coisa, que sou um nerd em computação, um técnico. Tampouco sou um virtuoso na música. Tenho técnica o suficiente pra desenvolver idéias, e produzir peças, o que é o bastante para mim. Estudei alguns anos de piano, mas sou praticamente auto-didata, tanto na música quanto nos softwares que uso, para o design, o video ou a produção musical. E isso me deu liberdade mental pra misturar tudo. Sempre justifiquei que, dentro do computador, é tudo 1 e 0! O computador não sabe o que é video e o que é música. Porque não tratar tudo de maneira igual, fazer tudo ao mesmo tempo? Essa simultaneidade, essa suruba digital me permitiu desenvolver peças como Birds, onde não se sabe o que veio primeiro. Nem eu sei direito. Isso é que é legal.

Abertura da série Mulher de Fases

Videoguru – O que mais você está planejando para 2012? Algum trabalho em especial?

Jarbas – Birds on the Wires está prestes a virar um projeto maior, com uma série de interpretações musicais de padrões aleatórios da natureza ou da humanidade. A idéia é virar uma série de videos, um curta, um dvd, uma exposição. Devo começar e acabar esse ano. Estou finalizando um clipe bem complicado para a banda de meu filho Gabriel, ZOIZ. E estou escrevendo meu primeiro roteiro de longa. Mas a publicidade ainda é minha principal atividade. Adoro dirigir, produzir, solucionar comerciais. O AD Studio está crescendo (agora com 5 diretores) e mirando em outros horizontes, como entretenimento e conteúdo. O Brasil está com ótimas perspectivas para os próximos anos. Acho que vou dormir pouco. Mas me divertir muito.

Um dos pequenos curtas de Jarbas sobre sua filha Nina

Para conhecer mais trabalhos de Jarbas Agnelli, você pode acessar o seu portfolio no site da produra dele, a AD Studio.

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3 comentários Nesse post
  1. Realmente o Cara é fera mesmo, simplesmente fantástico todos os trabalhos do Jarbas, que servem, como foi dito, de inspiração e saber que é possível realizar coisas simples , reveladoras e muito inteligentes. Gostaria que voce, João, explorasse mais esse cara…quais as câmeras que ele usou nos trabalhos, como captura, edita com FCP ,usa o AE…tudo será bem vindo…Parabéns pela matéria, abraço.

  2. Caro João Velho, seu sobrenome é, no mínimo, curioso, porque de velho mesmo, eu não vi nada por aqui. A não ser a humildade e sutileza dessa entrevista surpreendente que são – e necessitam ser -velhas companheiras de quem aspira estabelecer o sucesso e conteúdos autênticos, como o que encontrei em teu site.
    Sou professora de português nos EUA e hoje minha aluna me surpreendeu, quando falou sobre a composição de Birds on The Wire. Parabéns pelo teu profissionalismo, parabéns para esse brasileiro que pertence à categoria dos gênios, fui pesquisar mais sobre o assunto e encontrei essa riqueza de informação condensada que faço questão de espalhar. Boas notícias fazem bem a qualquer pessoa.
    Desejo muito sucesso para você e toda a tua equipe de trabalho!
    😀

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