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Videoguru entrevista: Márcio Nigro, compositor de trilha sonora e sound designer

Som para cinema é uma especialidade complexa, não é tão fácil achar bons profissionais nisso. Até algum tempo, nem existia a função de sound designer nas equipes de cinema daqui, por exemplo. Agora, encontrar alguém que é sound designer, mas que é muito mais até músico, produtor, compositor e arranjador… só mesmo o Márcio Nigro. Um verdadeiro luxo em qualquer equipe.

Além de ser jornalista, formado pela PUC-SP, com muita experiência na cobertura de tecnologia, Márcio é sócio-diretor da produtora de som Trio Digital, consultor de Macintosh na área de áudio, e especialista em Logic Pro e outros programas. Ah, ele também foi professor de Logic Pro da Universidade Anhembi Pacaembu, e ainda por cima, é parceiro do genial e também multi-talentoso André Abujamra, com quem está em cartaz atualmente por conta da trilha do longa “Dois Coelhos” que acabou de estrear (veja o trailer abaixo).

Enfim, Márcio é um profissional completo. Antenado, culto, sensível e super inteligente, sabe do que fala e escreve, e domina a técnica e a linguagem da música e do áudio sem barreiras entre essas coisas. Faz tudo isso muito bem, e está entre aqueles que mais entendem de Macintosh no Brasil no seu campo profissional.

É por tudo isso que ele vem sendo cada vez mais requisitado para trabalhos de peso e ganhando vários prêmios no cinema, e também é por tudo isso que o Videoguru estará sempre de braços abertos para ele. Trocar idéias com Márcio é um privilégio, do qual agora os leitores do blog poderão compartilhar

Depois de ler essa entrevista, se quiser saber mais sobre Nigro e o seu trabalho, vale visitar o seu site pessoal, cujo logotipo foi criado por Carlos Bêla, já entrevistado aqui no Videoguru.

Trailer de “2 Coelhos”, de Afonso Poyart

Videoguru – Nos últimos anos, você tem feito muitos trabalhos para cinema e vídeo juntando seus lados de compositor e especialista em aplicativos de áudio digital. Fale um pouco dessas experiências.

Márcio Nigro – Pra responder essa pergunta, gostaria de voltar um pouco no tempo, pois a resposta passa pela somatória de experiências que vivi.

Quando montei minha produtora em 1998 com mais dois amigos (hoje a empresa sou apenas eu), eu já usava o Logic Audio (hoje o Logic Pro da Apple) há anos. Por curiosidade ou necessidade, fui aprendendo a mexer no Photoshop, Flash, After Effects, Final Cut (até no Director). Nos meus tempos de jornalista, cobrindo a área de informática desde 93, fiquei também versado nos programas de DTP e em todo processo editorial.

Em 98, larguei meu emprego na falecida revista BYTE pra montar minha produtora. Logo em seguida, o Heinar Maracy, editor da saudosa Macmania me convidou pra trabalhar na revista. Eu precisava de um emprego pra segurar a vida enquanto o negócio não saia do chão. Na Macmania, aprendi muito do que sei hoje sobre o mundo Mac.

Durante cinco anos vivi a vida de agente duplo: um pé no mundo da Macmania e outro no áudio. Nesse período, comecei a ser consultor de Mac, de Logic e produção musical. Por causa disso, acabei prestando serviços para muitos músicos que eu já admirava e com quem hoje trabalho: Paulo Tatit, Hélio Ziskind e André Abujamra.

A somatória dessas experiências diversas me proporcionou uma visão multidisciplinar do processo digital da criação artística, permitindo enxergar além do âmbito musical.  Nesse processo todo, ainda acumulei um portifólio muito variado de composição, produção e sound design para meios diversos como internet, DVD, CD, exposições de arte, mixagem, documentário, cinema, e até mesmo série de TV (Turma do Gueto, Rede Record).

Todos esses elementos, teceram um rede de relações baseadas na competência e na confiança que me abriram, nos últimos anos, diversas portas de trabalho com as quais sempre quis trabalhar, como a produção de discos.

Já no cinema, uma área que sempre quis trabalhar, fui apadrinhado por André Abujamra, que virou meu irmão e parceiro musical. Compomos juntos a música de quatro filmes: Encarnação do Demônio, O Contador de Histórias, Amanhã Nunca Mais e 2 Coelhos.  Assinei sozinho de É Proibido Fumar. Tudo isso, de 2008 pra cá.  Um salto muito significante pra minha carreira.

Trailer de “É Proibido Fumar”, de Ana Muylaert

Também nesse período, Paulo Tatit me chamou prara fazer o sound design da série animada Peixonauta (52 episódios!), que felizmente foi um grande sucesso. Esse foi um trabalho muito bacana em que desenvolvi uma linguagem híbrida de sound design tradicional com a música, procurando, sempre que possível, sonorizar as cenas com a música do Tatit em consonância rítmica e harmônica com o arranjo. Um trabalho que foge do espectro normal de um sound designer ou mesmo de um compositor.

Série animada Peixonauta

Nos últimos anos, venho sonorizando (trilha e sound design) episódios animados do site DiverTV, da Nestlé, nos quais apliquei e elaborei essa linguagem que passeia entre sound design e a composição musical. Há dois episódios – O Segredo da Pirâmide e Máquina do Tempo – que atingiram um nível sofisticação inesperado. Na verdade, sou compositor em essência e, pra mim, sound design nada mais é do que outro modo de compor. Não é muito minha praia sonorizar filmes, por exemplo.

Respondeu sua pergunta? Nem sei.

Videoguru – Na área de áudio, aonde pode levar a recente mudança de posicionamento da Apple para os seus aplicativos profissionais?

Márcio – Esse é o grande mistério que todos os usuários de Logic devem estar curiosos para saber o desfecho. Afinal, o FCPX foi uma mudança radical que abalou a confiança de uns e animou outros. Pra falar mais da minha área, eu penso que, a menos que a Apple reinvente a roda no mundo do áudio, veremos uma mudança drástica de interface mas nada radical em termos de paradigma.

Provavelmente veremos no Logic Pro X a primeira versão com uma cara da Apple. Todas as versões lançadas anteriormente são baseadas na estrutura criada pela Emagic, certos aspectos datam de 1988, quando o programa chamava-se Notator e rodata no Atari ST. Talvez o GarageBand seja a melhor dica de como será a interface do novo Logic (assim como o iMovie foi o ponto de partida para o FCPX).

A demora em se lançar o Logic Pro X, pode ter a ver com a questão de hardware. Acredito que o Mac Pro tem os dias contados em sua forma atual, que não é atualizada há algum tempo. Uma máquina desse tamanho e com esses preços altos só atendem a um público cada vez mais de nicho, algo que vai na contramão da direção atual da Apple.

Sessão de Logic Pro para o filme “2 Coelhos”

Se o Mac Pro morrer e não vier nada no lugar, o iMac vira o modelo topo de linha, o que seria ridículo. Qualquer profissional de áudio sabe que o iMac não aguenta o tranco de um trabalho mais pesado de mixagem ou produção musical. Eu mesmo comparei um iMac desses recentes com o meu Mac Pro Dual Quad-Core 2008 que venceu com folga nos testes com o Logic.

Ouvi rumores de que uma nova linha vai substituir os atuais Mac Pro. Provavelmente algo mais compacto, talvez próximo do Cubo G4, um produto que hoje faria sentido como conceito. Sem uma linha de Macs mais potentes, não faz muito sentido pra Apple ter programas voltados para usuários profissionais, que poderão migrar para outros aplicativos e até mesmo outra plataforma.

Pode não ser o grande mercado da Apple, mas foram esses usuários que carregaram a empresa nas costas quando ela estava à beira da falência. Abandoná-los seria muito injusto, muito embora isso possa ser insignificante no mundo dos negócios.

 Videoguru – Você tem opinião formada sobre os recursos de áudio do novo Final Cut Pro X?

Márcio –  Não sou do mundo do vídeo por isso não mexi muito no FCPX, mas obviamente deu pra perceber muitas melhoras. Alguns recursos, como o que tira os ruídos de fundo automaticamente, são práticos e funcionais, mas longe de ferramentas profissionais. Já o equalizador, com várias bandas, achei muito bom para um programa de vídeo.

Filtro de áudio do Logic Pro funcionando no FCPX.

O fato de permitir usar todos os plug-in Audio Unit (antes era possível mas com uma interface meio impraticável), incluindo os do Logic, traz ferramentas de áudio profissionais para o programa. Resta saber se o usuário saberá como usá-las.

Videoguru – Sound design é algo que apenas de um tempo para cá vem sendo valorizado no Brasil. Como você vê esse movimento e o que falta para avançarmos ainda mais nesse sentido?

Márcio – A valorização do sound design (e do áudio como um todo) é algo muito recente por essas bandas. Há 10 anos ou até menos, poucos saberiam o que fazia um sound designer. Aliás, nem era muito fácil encontrar alguém que se apresentasse como tal.

Os avanços de qualidade de áudio das mídias digitais, dos cinemas, das TVs e facilidade de acesso de conteúdo do mundo inteiro a partir da internet fez com que cineastas, produtoras, agências percebessem que o áudio é um elemento tão importante como qualquer outro. Algo que precisa estar mãos de gente capacitada.

Márcio Nigro, em pessoa

Esse é um passo importante, pois é fato que boa parte dos profissionais que trabalhar com mídias audiovisuais não entende chongas de áudio, nem mesmo conceitos básicos como diferenciar frequências grave, média e aguda ou diferenciar estilos musicais.

Minha percepção é que no Brasil há esse estranho hábito de pular etapas durante o desenvolvimento profissional, principalmente nas áreas ditas artísticas. Assim, tem muito designer que não estuda teoria das cores, engenheiro de som não sabe de acústica, cineasta que não entende nada de música e por aí vai.

Claro que não se pode generalizar, mas por aqui tem essa essa coisa de desvalorizar o trabalho técnico e glamourizar o pseudo-artístico-intelectual. A valorização do aprendizado técnico é algo recente e ainda tímido por essas bandas.

Se você olhar os créditos dos filmes brasileiros que tem sound design de alto nível, não verá muito nomes diferentes, em geral gente que vem trabalhando há muito tempo nisso. Tem gente boa chegando nesse mercado mas também não são muitos. É uma área que exige bastante conhecimento técnico e mas também pode ser uma arte. Ninguém vira um da noite pro dia.

Nigro, no estúdio

Videoguru – Qual é o barato de fazer trilha sonora para cinema? O que esse tipo de trabalho envolve? O Brasil está bem nessa área?

Márcio – O grade barato de fazer música pra cinema é poder experimentar bastante. Você pode compor com instrumentos orquestrais (reais ou de sampler), misturar com timbres eletrônicos, usar loops, criar efeitos e o que der mais na telha.

Não há necessidade de se prender um modelo musical popular. O que importa é criar a sensação que a cena pede. A cena é quem manda, ou deveria mandar, pois nem sempre é que o se vê nos filmes. Às vezes o lado intelctual, mercadológico ou até mesmo idiossincrático do diretor ou produtor fala mais alto.

Outra coisa bacana é que cada filme pede um modo de trabalhar. Para “O Contador de Histórias”, do Luiz Villaça, por exemplo, eu e o Abu (André Abujamra) sampleamos o corrimão do elevador de onde eu morava na época. Era um timbre metálico super diferente, que usamos numa das cenas como elemento de tensão.

Trailer de “O Contador de Histórias”, de Luiz Villaça

Tenho muito carinho por esse filme, pois tem músicas que eu adoro, quase todas baseadas num tema simples e delicado que o Abu criou. A composição que toca tela inicial do site oficial, considero um dos meus melhores trabalhos.

Já em “Encarnação do Demônio”, do Mojica (Zé do Caixão), tivemos uma liberdade enorme, pois a trilha do filme de terror tem que causar estranheza. Ali tem sons te percussão na cordas do piano, Satanás cantado ao contrário, timbres malucos, percussões tribais e muito mais. Nos divertimos muito trabalhando no filme.

Outro dia estava escutando a trilha (disponível para download) e me surpreendi, pois trabalhamos praticamente só nós dois com o Logic, Sampler e outras poucas coisas gravadas nos nossos estúdios. Tem horas que parece ter uma puta orquestra de verdade. Acabou que ganhamos o prêmio no Festival de Paulínia.

Trailer de “Encarnação do Demônio”, de José Mojica Marins

Infelizmente, a maioria dos filmes nacionais não separa muita verba para a música original. Dependendo, uma produtora pode ganhar uma grana similar fazendo apenas um jingle. Isso é uma pena, pois não tem como ter uma orquestra ou até mesmo músicos de verdade com pouco orçamento.

Felizmente os sampler de hoje são muito bons e resolvem muita coisa, mas certos instrumentos só ficam bons mesmo gravados ao vivo. Porém, é claro que não podemos comparar o mercado brasileiro com o dos EUA ou Europa. Aqui quase tudo é lei de incentivo fiscal, de modo que o cinema brasileiro acaba vivendo de esmola e tendo que botar os brochantes logos das empresas logo no começo do filme.

Similar ao que mencionei sobre sound design, considero que o time de bons compositores para cinema é um tanto restrito. Não são muitos os filmes nacionais que realmente me atraem por causa da música original. Em vários eu discordo da abordagem conceitual, de narrativa ou até mesmo de questões estilísticas.

Conheço bons músicos que resolveram fazer trilha pra cinema e descobriram que não era nada fácil, pois é um processo de composição que parte da imagem, que tem uma função de condução narrativa, que trabalha silêncio, que tem dramaticidade. Tem que entender como funciona essa arte. É uma linguagem que a gente desenvolve, aperfeiçoa com o tempo, seja pra cinema (que realmente é a linguagem mais complexa) ou para qualquer outra mídia.

Agora, nem sempre é culpa do músico quando a música não funciona. Se o diretor não souber se comunicar musicalmente o que ele quer ou, pior, comunicar errado, a coisa já pode nascer torta.

Como a maioria dos filmes são editados com trilhas de referência (não só aqui no Brasil), o diretor passa meses na sala de edição ouvindo as cenas com as essas músicas e pode acabar com o ouvido viciado e não conceber uma outra sonoridade mais adequada. Outro risco desse processo é que cada referência pode ser muito diferente da outra. Nesse caso, a música pode perder uma de suas funções básicas no cinema: criar unidade.

Videoguru – Quais os seus planos e projetos para 2012, especialmente na área de audiovisual?

Márcio – Cada ano tem sido uma surpresa. Começo do ano normalmente é a hora do respiro para recuperar energias para novos projetos. Eu e o Abu terminamos em dezembro a música de 2 Coelhos, que estreou com tudo no cinema. Agora estamos tentando botar em pé um projeto que há tempos estamos matutando.

No momento, estou mais concentrado nos discos que estou produzindo (do Carlos Careqa e da Glaucia Nahsser). Para cinema há coisas no ar, mas nada certo ainda. Além disso, vem vindo aí meu segundo filho. Então é bom rolar muita coisa daqui pra frente, pois os gastos só vão aumentar…

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